Se Adão Guardava o Sábado, Por Que o Cristão Não Guarda?
Muitos cristãos e estudiosos da Bíblia se deparam com
um questionamento intrigante: se o sábado foi instituído no Éden, antes da
entrada do pecado no mundo e séculos antes da Lei de Moisés, ele não deveria
ser uma regra eterna e obrigatória para toda a humanidade?
Afinal, se Adão, movido por um amor perfeito e pelo
exemplo direto de Yahweh, guardava o sétimo dia [assim como as leis do trabalho e
do matrimônio monogâmico], por que nós, debaixo da Nova Aliança, estamos livres
dessa obrigação legal?
A resposta para esse dilema não está na abolição do
sábado original por parte de Jesus, mas sim na sua elevação ao cumprimento
máximo, como mostram as Escrituras Sagradas, algo que ocorreu com todos os preceitos da Lei Mosaica e não só em relação à guarda do sábado deixado por Yahweh através do exemplo. O cristão não guarda o sábado semanal de 24 horas porque, em
Cristo, nós retornamos à realidade de amor e adoração permanentes da Criação, não havendo dias, meses e anos (Gálatas 4:9-10; Colossenses 2:16-17).
1. A Lei do Amor no Coração vs. A
Letra da Lei
Antes da Queda, Adão não possuía tábuas de pedra ou um código jurídico escrito. Ele tinha a chamada a Lei do Amor (a Lei de Cristo) gravada de forma viva em seu coração (Gálatas 6:2; João 13:34; João 15:12; 1 João 3:23; Gálatas 5:14; Romano 13:8-10; Mateus 22:37-40). Ele amava e adorava a Deus de forma espontânea e natural, e o princípio do descanso e da adoração integral estavam contidos nessa disposição amorosa.
Com o pecado, a miséria humana abundou e o homem perdeu essa bússola interna, embora mantivesse a norma da lei gravada no coração (Romanos 2:15). Foi necessário, então, que Deus codificasse a moralidade em mandamentos externos e rígidos (a Lei Mosaica), transformando o sábado em uma norma jurídica punitiva para expor a total incapacidade humana de salvar-se pelos próprios méritos (Romanos 3:20; Gálatas 2:16; Gálatas 3:24).
Na Nova Aliança, o sacrifício de Jesus e a vinda do Espírito Santo operam uma restauração extraordinária: Deus volta a escrever a Sua lei diretamente nos corações dos crentes (Jeremias 31:33; Ezequiel 36:26-27; Hebreus 10:16-17). O Espírito não nos impõe rituais externos ou calendários rústicos; Ele nos capacita a viver a essência de toda a lei, que se cumpre plenamente no amor (Romanos 13:8-10).
Nota: no Sermão do Monte (Mateus 5), Jesus
repete a expressão "Ouvistes o que foi dito... Eu, porém, vos
digo". Com isso, Ele não estava apenas repetindo Moisés, mas agindo
como o Legislador Divino e estabelecendo parâmetros infinitamente superiores
aos da Lei Mosaica, retrocedendo até o Éden, quando Adão e Eva eram movidos pela "Lei do Amor" (antes do pecado). A Lei moral do Antigo Testamento regulava apenas o crime
visível e exterior; Jesus, contudo, internalizou o tribunal e passou a julgar
as intenções do coração, como nos seguintes exemplos: (1) O Olhar e a Cobiça: antigamente,
o sistema civil de Moisés só punia o adultério físico. Não havia pena ou
tribunal humano para quem olhasse para a mulher do próximo desejando-a em
segredo. Na Lei de Cristo, a "Lei do Amor" (Romanos 13:8-10), o
padrão foi elevado, de tal sorte que o desejo deliberado e a cobiça no coração
já constituem pecado e preveem punição espiritual (a correção d'Aquele que corrige o filho que ama); (2) A Carta de Divórcio: no
Antigo Testamento, Moisés permitiu a emissão de uma carta de divórcio por
motivos diversos, por causa da dureza do coração dos homens. Jesus intervém e
corrige o padrão, restaurando o plano original da criação ("serão ambos uma só carne" - Gênesis 2:24). Na Lei de Cristo, a
única exceção legítima que viabiliza o divórcio e um novo casamento é o caso de
relações sexuais ilícitas (porneia), i.e., a quebra do vínculo conjugal
pela infidelidade (Mateus 19:9).
Adão guardava o sábado porque vivia na perfeição da "primeira criação". O cristão hoje não guarda o sábado nos moldes antigos porque, por meio de Jesus, já foi inserido espiritualmente na perfeição da "nova criação" (2 Coríntios 5:17).
O Novo Testamento (Hebreus 4:3; Colossenses 2:16-17; Efésios 2:6) esclarece que o sábado semanal da Lei Mosaica era apenas uma "sombra" do "descanso verdadeiro", cujo acesso se dá por meio da fé (Efésios 2:8-9). De maneira que viver na Nova Aliança não significa viver sem lei; significa viver sob uma lei muito mais alta e profunda, escrita não em pedras, mas em nossos corações pelo Espírito Santo (a Lei de Cristo).
Nota: grandes
teólogos creem que a passagem que diz "aquele que entrou no descanso de
Deus" (Hebreus 4:10) está se referindo ao próprio Jesus Cristo. A
analogia funciona assim: Jesus veio à Terra com uma missão (a obra da nova
criação e salvação), viveu perfeitamente, sofreu e morreu. Quando estava na
cruz, Ele clamou: "Está consumado!" (João 19:30). Ao
ressuscitar e subir aos céus, Ele sentou-se à destra da Majestade nas alturas (Hebreus 1:3).
Esse ato de se sentar simboliza que a Sua obra sacrificial foi terminada e Ele
entrou no Seu descanso. Em Hebreus 4:3, está dito que "nós, os que
cremos, entramos no descanso". Portanto, quando Deus nos coloca
espiritualmente "em Cristo" e nos faz assentar com Ele nos céus
(Efésios 2:6), nós passamos a desfrutar do mesmo descanso que Jesus conquistou.
2. A Regra Bíblica: Do Material para o
Espiritual
A Bíblia mostra de forma consistente que o que era físico, material e geográfico na Velha Criação (e na Lei Mosaica) eleva-se, expande-se e passa a ser espiritual e eterno na Nova Criação. O apóstolo Paulo resume essa lei de transição da Velha Criação ("sombra") para a Nova Criação ("realidade"), dizendo: “Vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4:24); além de garatir que houve mudança de sacerdócio, implicando na mudança de Lei (incluindo a Lei moral).
Nota: há um princípio bíblico do Novo Testamento, encontrado na carta aos Hebreus 7:12, que diz: "Pois, quando se muda o sacerdócio, necessariamente há também mudança de lei". O Sacerdócio Antigo era baseado na tribo de Levi e na lei de Moisés, já o novo é representado por Jesus Cristo, que descende da tribo de Judá, de sorte que a mudança do líder espiritual para a ordem de Melquisedeque traz uma nova aliança e substitui as regras antigas, incluindo as morais que passaram a ter o seguinte padrão espiritual rigoroso: (1) O pecado não é apenas o ato físico (matar ou adulterar, por exemplo), mas a intenção do coração (odiar ou cobiçar); (2) O modelo de conduta deixa de ser o texto das tábuas de pedra e passa a ser o amor sacrificial de Cristo, de sorte que o cristão deve amar como Ele nos amou (João 13:34).
Ao longo de toda a história da salvação, Deus usa elementos
materiais visíveis ("sombras") para apontar para realidades espirituais maiores:
· O
Templo: antes era
um prédio material de pedras (em Jerusalém); na Nova Aliança, o templo espiritual
é o nosso corpo e a Igreja (1 Coríntios 3:16).
· Os
Sacrifícios: antes
eram animais materiais (sangue de bodes); hoje são sacrifícios espirituais de
louvor e a entrega da nossa própria vida (Romanos 12:1).
· A
Terra Prometida: antes era um pedaço de chão material no Oriente Médio (Canaã); hoje a nossa
pátria é espiritual e celestial (Hebreus 11:16).
· O
Sábado: antes era
um dia material de 24 horas (tempo demarcado); hoje é o descanso espiritual
contínuo da alma em Jesus (Hebreus 4:3).
3. O Éden era um Modelo Material
No Éden, Adão era um ser físico vivendo em um mundo físico e
perfeito. Deus estabeleceu o sábado ali como um modelo material apropriado para
a rotina humana daquela primeira criação. Havia um ciclo de tempo físico porque
Adão habitava um corpo natural e terreno.
O sábado de 24 horas pertencia àquela estrutura da "Velha Criação" (feita de matéria e tempo linear). Tratava-se de uma instituição de puro amor e graça, transmitida a Adão pelo exemplo do próprio Deus, oferecendo à humanidade um modelo material de ritmo de vida, i.e., um dia de total liberdade e prazer, feito exclusivamente para o benefício do homem (como Jesus confirmou em Marcos 2:27).
Tal dia servia para a cessação das atividades diárias, o
cultivo do convívio familiar perfeito e a adoração espontânea ao Criador. No
Éden, guardar o sábado era uma resposta de amor e comunhão, não uma regra de
salvação.
Nota: o sábado da criação não guardava relação com a chamada “lei moral”, pois o pecado sequer havia entrado no mundo (Adão e Eva eram moralmente perfeitos). Nem mesmo depois do pecado de Adão e Eva é possível classificar o descanso sabático como um mandamento moral, como fazemos com os demais do decálogo ("não matarás", "não adulterarás", "não furtarás", etc.), visto que estes não possuem exceções em circunstância alguma. O sábado, por outro lado, podia ser flexibilizado em favor do serviço a Deus e da preservação da vida como o próprio Mestre nos ensinou nas seguintes passagens: "Ou não lestes na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado, e ficam sem culpa?" (Mateus 12:5) e "E perguntou-lhes: É lícito no sábado fazer bem, ou fazer mal? Salvar a vida, ou matar? E eles calaram-se" (Marcos 3:4).
4. Quadro Sintético:
|
Dispensação |
Descanso Sabático |
|
No Éden (Lei do Amor) |
Um presente de amor, descanso familiar e
adoração espontânea a Deus. |
|
No Sinai (Lei Mosaica) |
Um mandamento escrito, rígido e
punitivo, que servia de sombra para expor a incapacidade e a miséria do homem
escravizado pelo pecado |
|
Na Graça (Jesus) |
A Verdade revelada. Jesus se torna o Descanso eterno e a
fonte de adoração contínua no coração do crente. |
Nota Teológica: o livro de Gênesis cobre cerca de 2.500 anos de história (de Adão até José) e nunca mostra Abraão, Isaque ou Jacó guardando o dia de sábado. A primeira menção prática ao descanso sabático entre o povo de Deus ocorre apenas em Êxodo 16, na história da colheita do maná, pouco antes da entrega da Lei no Monte Sinai. Grande parte dos estudiosos defende que os patriarcas não guardavam o sábado, pois ele foi instituído especificamente como um sinal exclusivo da aliança entre Deus e a nação de Israel, como especifica Deuteronômio 5:15, visto que, no Egito, durante a escravidão do povo judeu, o trabalho era de sol a sol, sem descanso. Dizem os tais estudiosos que embora Deus tenha abençoado o sétimo dia na Criação como um dia especial (um dia de benção na vida do homem), separado dos demais dias para o benefício do homem (Marcos 2:27), Ele não deu uma ordem de guarda aos seres humanos naquele momento. Tudo indica que o descanso sabático era uma profecia que apontava para o Messias (o verdadeiro descanso), visto que "n'Ele [em Jesus] foram criadas todas as coisas [...] por ele e para ele [para Sua glória]" (Colossenses 1:16). Os estudiosos sabatistas, por sua vez, defendem que os patriarcas guardavam o sábado por tradição oral, mesmo que não houvesse um registro escrito antes de Moisés, baseando-se especialmente em Gênesis 26:5, onde Deus diz que "Abraão obedeceu à minha voz e guardou os meus mandamentos, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis". Para essa corrente, as leis de Deus (incluindo o sábado da criação) já eram conhecidas e praticadas de forma moral antes de serem escritas em tábuas de pedra (vide Êxodo 16). Contudo, na visão de muitos estudiosos, o significado prático e teológico dessa lista de termos descritas em Gênesis 26:5 é o seguinte: (1) A voz de Deus representa as ordens personalizadas que Deus deu diretamente a Abraão: a ordem de deixar sua terra natal rumo ao desconhecido (Gênesis 12:1) e o doloroso chamado para oferecer Isaque no altar, descrito em Gênesis 22:2; (2) Os Mandamentos/Preceitos seriam a ordem direta do pacto da circuncisão para ele e sua casa (Gênesis 17:9-13), além do padrão moral de "andar na presença de Deus e ser perfeito" (Gênesis 17:1); (3) Os Estatutos e Leis tratam das Leis morais universais baseadas na consciência e na tradição repassada desde Adão e Noé, incluindo: o casamento heterossexual monogâmico, a proibição do homicídio e do consumo de sangue (Gênesis 9:4-6), o repúdio à idolatria, à mentira e à imoralidade sexual (vista quando Abraão e Abimeleque reconhecem o adultério como um "grande pecado" em Gênesis 20:9). Além disso, envolvia o sistema de altares, dízimos e sacrifícios voluntários para adoração a Deus ensinadas a ele por Melquisedeque (Gênesis 14:18-20). Todas essas coisas indicam, na visão desses estudiosos, que Abraão foi perfeitamente fiel a toda e qualquer manifestação da vontade de Deus que lhe foi revelada em sua época, servindo de modelo de obediência completa para o povo que agora tinha a Lei Mosaica escrita, não havendo, portanto, menção ao descanso sabático nas ordenanças de Deus para o referido patriarca. Entretanto, ainda que não seja correto criar uma teologia no silêncio das Escrituras, nada impede que Abraão tenha recebido o mandamento da guarda do sábado de Melquisedeque, seu sacerdote (Hebreus 7:1-21). Se isso ocorreu de fato, tal tradição oral pode muito bem ter caído no esquecimento do povo hebreu, assim como ocorreu com as demais "leis", visto que o próprio Abraão juntou-se maritalmente com Agar e Jacó casou-se com mais de uma mulher, contrariando a ordenança original dada a Adão (Gênesis 2:24; Mateus 19:4-6). Aliás, a expressão "lembra-te do dia de sábado" (Êxodo 20:8) pode ser perfeitamente interpretada como a intenção divina de resgatar, na humanidade, a memória sobre a origem do mundo, quando Deus descansou das Suas obras e deu uma bênção para todos os homem, i.e., um dia de descanso e liberdade das obrigações diárias, usando para isso a nação de Israel como modelo, no sentido de converter as nações (Êxodo 19:6; Deuteronômio 4:6-8).
5. A Jerusalém Celestial: O Fim do Tempo
Material
Na eternidade, as limitações materiais do Éden não existirão
mais, porque nós receberemos corpos glorificados e espirituais (1 Coríntios
15:44).
O livro de Apocalipse prova que não guardaremos dias na
Jerusalém Celestial porque a própria engrenagem do tempo material será
superada:
· Não
haverá noite: "A cidade não necessita de sol nem de lua, para que nela
resplandeçam, porque a glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro é a sua
lâmpada... ali não haverá noite" (Apocalipse 21:23-25).
· Se
não há noite, não há contagem de dias: o sábado depende estritamente do ciclo
solar (do pôr do sol de sexta ao pôr do sol de sábado). Na eternidade, onde a
luz de Deus é contínua e não há pôr do sol, o conceito de "guardar o
sétimo dia" perde o sentido físico.
· O Sábado Eterno: na Jerusalém Celestial, o sábado deixa de ser um "dia da semana" e passa a ser o estado eterno da realidade. Nós viveremos em adoração contínua, comunhão familiar plena e descanso absoluto, sem interrupção de calendários.
Conclusão
Se na eternidade ("Nova Criação" consumada) nós não guardaremos dias porque viveremos no descanso espiritual eterno, a Igreja hoje já experimenta uma "amostra" disso na Terra, pois, segundo Hebreus, ela já chegou "ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos; à universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados; e a Jesus, o Mediador de uma nova aliança [e verdadeiro descanso]” (Hebreus 12:22-24).
Pelo Espírito Santo, nós já fomos transportados para a Nova Criação (2 Coríntios 5:17). Por isso, o cristão já vive o sábado de forma espiritual todos os dias em Cristo, livre das amarras do tempo material.
Clique no vídeo e assista uma bela perspectiva de como será a Jerusalém Celestial.


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