A mulher adúltera (João 8:1-11)

 


Imagem gerada pelo Google AI, 2026.
Marcelo Victor R. Nascimento

1ª PERGUNTA: por que Jesus não condenou a adúltera?

Resposta [mais comum]: “Mesmo a Lei de Moisés ordenando a condenação da mulher adúltera à morte e Jesus tendo autoridade moral para fazê-lo, Ele não a condenou. Logo, Jesus aboliu a Lei de Moisés em favor da misericórdia e do amor”.

 

PERGUNTA: a visão de Jesus como um abolidor da Lei é compatível com a Bíblia?

Resposta: não é compatível, pois Ele disse que não tinha vindo para ab-rogá-la, mas para a cumprir [Mateus 5:17].

 

PERGUNTA: por que os rabinos procuraram Jesus para perguntar-Lhe o que fazer com a mulher adúltera?

Obs: considerando que Jesus NÃO ERA UM JUIZ e eles NÃO ESTAVAM EM UM TRIBUNAL, onde as causas são julgadas, era preciso uma razão plausível que justificasse a ida deles até Jesus para Lhe fazer uma pergunta [ainda que o texto diga que eles desejavam acusar Jesus de alguma coisa]. 

Resposta: tudo leva a crer que a pena de morte [pena capital] não estava sendo aplicada pelos juízes de Israel, pelo menos oficialmente, visto que, nessa época, Israel estava debaixo do domínio do império romano e Roma reservava apenas para si o direito de condenar pessoas à morte [ver João 18:31, 19:10-16; Lucas 23:1-24; Mateus 27:1-2,15-26; Marcos 14:61-65, 15:1-15; Atos 18:12-15, 21:27-33, 23:26-29, 25:8-12].

    Esse detalhe indica que se tratava, de fato, de uma ARMADILHA para apanhar Jesus, pois, se dissesse “NÃO”, contrariaria a Lei de Moisés; e, se Ele dissesse “SIM”, seria acusado de sedição [rebelião] contra Roma.


PERGUNTA: como resolver o dilema de deixar de cumprir a Lei Mosaica para cumprir a Lei Romana, pois deixar de apedrejar a adúltera significava seguir a Lei Romana e desobedecer a Deus?

Resposta: uma possível explicação para esse dilema é o fato de que havia leis que dependiam do CONTEXTO em que o povo estava, diferentemente, por exemplo, das “leis morais”, as quais deveriam ser observadas pelos judeus onde quer que se encontrassem [como os DEZ MANDAMENTOS, por exemplo].

    Portanto, parece razoável entender que os judeus sabiam que, estando fora de Israel, os mandamentos referentes à organização da sociedade [as “leis civis”] já NÃO TINHAM APLICAÇÃO, i.e., fora de Israel valia a lei do país em que os judeus estavam, porque os judeus não tinham autoridade para aplicar determinadas lei [com as judiciais, por exemplo].

Obs: quando somos imigrantes, por exemplos, somos obrigados a cumprir as leis do país onde vivemos.  

    Isso não equivale à ideia de negar a Torah, mas, reconhecer que algumas leis só possuem aplicação no país de origem [como era o caso de Israel, que estava dominado pelos romanos]. Assim sendo, como Jesus era considerado um grande Mestre, os rabinos aproveitaram-se e foram até Ele, mesmo não sendo juiz.

Obs: a Bíblia mostra exemplos que determinadas leis eram descumpridas sem pena, tais como: (1) A citação de Jesus de que o sábado podia ser ignorado se fosse para salvar uma vida, pois ela é mais importante do que a Lei [Mateus 11:12]; (2) A atitude do sacerdote Abiatar, dando a Davi e seus militares os pães da proposição que só eram permitidos aos sacerdotes [1 Samuel 21:1-6; Levíticos 24:9]; (3) Até mesmo o próprio Yahweh disse que, por causa da desobediência do povo, Ele próprio faria cessar as festas que estabelecera como mandamento [Oséias 2:11].  Isso tudo mostra-nos que os judeus sabiam que os mandamentos de caráter moral tinham aplicabilidade mais abrangente [válidos em qualquer lugar] do que os mandamentos civis.

Obs: o fato de os fariseus perguntarem a Jesus qual era o maior dos mandamentos aponta para essa realidade de consciência da GRADUAÇÃO DA LEI [dos níveis de importância].

Obs: em última instância, estar sob as leis civis de Roma era uma permissão divina e apenas Yahweh poderia reverter esse quadro, não cabendo a um judeu comum, por sua própria iniciativa, tentar retomar a teocracia à força. Com base nesse princípio, os apóstolos Paulo e Pedro, por exemplo, recomendaram respeito às autoridades, independentemente de serem judias ou não [Romanos 13:1-10; 1 Pedro 2:11-17].

    Assim sendo, podemos concluir que os rabinos [que odiavam Jesus] sabiam que era uma ótima estratégia forçá-lo a colocar-se contra Roma, mesmo quando eles mesmos não se viam obrigados a fazer isso. Se Jesus assumisse um papel revolucionário, corria o risco de ser morto, sendo essa a melhor razão pela qual os rabinos levaram a mulher até Jesus.

Obs: na cabeça dos rabinos, se Jesus NÃO ASSUMISSE UM PAPEL REVOLUCIONÁRIO, Ele seria mal visto pelo povo e seria desmascarado, pois o Messias prometido, descendente de Davi, Rei dos judeus, Filho de Deus, viria ao mundo com autoridade para restaurar todas as coisas [Isaías 2:1-5; Zacarias 14:1-21]. Os rabinos pensavam, portanto, que se tratava de uma encruzilhada sem saída para Jesus.

 

PERGUNTA: o que dizer do fato de apresentarem a Jesus uma mulher e não terem trazido o adúltero junto com ela, visto que a Lei determinava a penas de morte não apenas a mulher [Levíticos 20:10; Dt 22:22-24]?

Resposta: na ânsia de apanhar Jesus, os doutores da Lei não se preocuparam com os detalhes da própria Lei, que podia ser usado por Jesus contra eles, dizendo-lhes que aquele julgamento não era justo. Esse detalhe mostra que Deus realmente “apanha os sábios na sua própria astúcia e o conselho dos que tramam se precipita” (Jó 5:13).

Obs: tal pormenor pode indicar que se tratou de uma ARMAÇÃO [até mesmo com a possível participação do adúltero na trama], havendo a desculpa de que era melhor condenar só a mulher do que deixar os dois impunes.

Obs: seria uma possibilidade para Jesus impugnar o julgamento, contudo, ainda assim, o argumento poderia servir para jogar o povo contra Jesus, uma vez que o machismo era muito forte naquela sociedade e a IMAGEM DE UMA MULHER ADÚLTERA SEM CONDENAÇÃO poderia incitar todo o povo contra Jesus.

  

PERGUNTA: o que significam as palavras de Jesus quando disse que “aquele que tivesse sem pecado que fosse o primeiro a atirar a pedra”? Será que Ele estava dizendo que só quem possui ausência absoluta de pecado é que podia cumprir o mandamento de apedrejar adúlteros?

Resposta: Jesus não estava falando sobre AUSÊNCIA ABSOLUTA DE PECADO, mas de pecados graves, deliberados e/ou constantes. Em suma, Jesus estava exigindo daqueles juízes que estivessem com a vida limpa, a consciência pura, o juízo reto, tal como determina a Torah para os juízes [Êxodo 18:21; Êxodo 23:6-9; Levíticos 19:15; Deuteronômio 1:16-16; Deuteronômio 16:18-20].

    A resposta de Jesus foi extremamente inteligente, pois Ele (1) concordou com a Lei de Moisés, (2) fez lembrar que os juízes precisavam estar limpos diante de Deus e (3) jogou a responsabilidade para eles.

    No fim das contas, eles teriam de decidir, do mais velho ao mais novo, se estavam limpos o suficiente para executar um juízo que Roma nem lhes permitia executar, tornando-se réus de Deus e de Roma. Além de serem impedidos de culpar a Jesus de ser um transgressor da Torah e de se levantar contra Roma.

Obs: com essas palavras, Jesus (1) não arrogou para si a posição de juiz, (2) não contrariou a Lei de Moisés, (3) não iniciou um debate, (4) não incentivou uma rebelião contra Roma. Simplesmente colocou as coisas nos devidos lugares, como se dissesse: “Vocês são juízes por direito, não é? O dever de julgar é de vocês. Estão aptos? Se sim, façam como manda a Lei”.

 

PERGUNTA: quando ficou só com a mulher, Jesus, sendo moralmente perfeito, tinha plenas condições de julgar aquela mulher, mas por que não o fez?

Resposta: quando o Messias perguntou para a mulher “onde estavam os seus acusadores”, a situação se tornou cômica [no sentido jurídico], pois estava havendo naquele local o julgamento:

(1) De uma suposta adúltera;

(2) Fora de um tribunal;

(3) Sem a presença de juízes;

(4) Sem a presença de acusadores [já que todos foram embora];

(5) Sem a presença do adúltero [que não foi levado ao local, nem mencionado];

(6) Sem uma investigação minuciosa sobre o caso; e

(7) Em um contexto onde as leis civis não estavam sendo aplicadas em função do domínio romano.

    Em suma, NÃO HAVIA UM JULGAMENTO de fato ali.

Obs: a mulher não podia ser condenada civilmente de maneira alguma e, se Jesus Cristo o fizesse, não estaria apenas incorrendo apenas em falta de amor e misericórdia, mas, quebrando diversos princípios e regras jurídicas da Torah. Portanto, condenar a mulher adúltera estava totalmente em desacordo com a Lei Mosaica e com a missão que veio cumprir, lembrando que Ele não condenou uma mulher samaritana que tinha tido cinco maridos e vivia amigada com alguém [João 4:17-18]. Portanto, se condenasse a mulher adúltera, Jesus estava em desacordo com a Torah, com o judaísmo bíblico, com o Seu ministério e com a vontade do Pai.

Obs: há muitos intérpretes que entendem que o foco de João 8:1-11 é falar do "amor" e da "misericórdia" de Jesus em detrimento da Lei de Moisés. Contudo, diante dessa análise, o foco da passagem parece ser a superioridade de Cristo na interpretação e aplicação corretas da Lei, em oposição aos mestres hipócritas que pervertiam tudo.

 

PERGUNTA: se o contexto fosse outro, Jesus condenaria a mulher adúltera?

Resposta: para uma pergunta especulativa, apresentamos respostas igualmente especulativas [suposições].

    Podemos imaginar pelo menos dois contextos:

   Contexto 1: Israel não estava proibido de executar penas de morte por Roma, os dois adúlteros foram levados para o tribunal, havia um juiz formal presente e tudo seguiu os trâmites corretos.

    Bom, neste caso, dificilmente Jesus teria sequer tomado conhecimento do julgamento, já que ele não era juiz. E mesmo que tomasse, dificilmente tomaria alguma providência, pois não se metia nos assuntos das autoridades civis.

Obs: João Batista, por exemplo, foi preso e morto injustamente pelo Estado (Marcos 6:14-29; Mateus 11:1-6; Lucas 7:18-23). Jesus não foi lá livrá-lo ou interceder por ele.

Obs: o criminoso na cruz que reconheceu Jesus como Senhor também não foi livrado da pena de morte (Lucas 23:39-43; João 19:31-32). Foi salvo espiritualmente, porém cumpriu sua pena por seus crimes civis.

Obs: esses exemplos não querem dizer que Jesus não se importava com a pessoas e com as injustiças. Apenas significa que sua missão não era ir a tribunais ou prisões para fiscalizar julgamentos e livrar pessoas das condenações civis [obs: também não quer dizer que essa não seja a missão de muitos cristãos em muitos contextos, nos quais ocupam cargos de julgamento. Só não era a missão de Jesus].

    Contexto 2: Jesus era juiz formal, Israel não estava proibido de executar penas de morte por Roma, os dois adúlteros foram levados para o tribunal e tudo seguiu os trâmites corretos.

    Neste caso, a não ser que o Pai enviasse um sinal de que aquela Lei civil deveria ser anulada ou que os dois adúlteros deveriam ser livrados, Jesus certamente iria cumprir a Lei.

      Mas aqui devemos ponderar o seguinte: se o Pai, na história real, permitiu que Israel não pudesse aplicar pena de morte, que o adúltero não fosse levado diante de Jesus e que juízes impuros a tentassem julgar, é razoável concluir que Ele não queria que aquela mulher morresse ali. Ele tinha outros planos para ela [como ocorreu na vida de Davi, por exemplo, a quem Deus perdoou].

 

PERGUNTA: por que as leis civis e penais da Torah eram tão duras?

Resposta: a história e a própria Bíblia mostram que os povos do mundo antigo, em especial no antigo oriente, eram, possivelmente, mais brutos dos que os de hoje. Isso, porque:

(1) A escravidão era comum, de forma que até mesmo os próprios escravos muitas vezes escolhiam se vender;

(2) O machismo era normal, até mesmo para as próprias mulheres, as quais não viam problema no fato dos homens possuírem mais de uma mulher [esposa], aliás, ter mais de uma mulher era sinal de que o homem tinha dinheiro, vigor e autoridade para sustentar uma família grande;

(3) A diplomacia global não existia;

(4) Os direitos humanos eram um conceito muito distante;

(5) As guerras eram o modo padrão de resolver problemas;

(6) As invasões entre os países eram comuns;

(7) Não havia estados laicos, de forma que religião e política mesclavam-se;

(8) Existiam cultos a deuses que ordenavam sacrifícios de crianças ou que envolviam rituais repletos de orgias; e

(9) Abusos sexuais a estrangeiros eram corriqueiros em muitos lugares.

    Em um mundo como esse, de onde Deus resgatou um povo contaminado por todos esses pensamentos, as leis civis, em alguma medida, eram uma resposta aos males presentes nesse período, i.e., eram necessárias para os problemas morais e sociais daquela época, lembrando que os mandamentos de Deus sempre foram santos, justos e bons, refletindo o caráter divino [Romanos 7:12]. 

  Apenas ao longo dos séculos, a cultura bárbara foi gradualmente sendo modificada, especialmente com o advento do cristianismo que ensinou o AMOR AO PRÓXIMO como uma virtude essencial para a vida em sociedade e como o resumo da Lei Mosaica [Gálatas 5:14; Romanos 13:9].

    Outrossim, é preciso ter em mente que muito do que Yahweh fez no AT foi visando a proteção da religião hebraica como um todo, de modo que ela não sucumbisse em um mundo de imoralidade extrema e um politeísmo exagerado. O intuito final era só um: preservar o povo e as verdades divinas até a vinda do Messias.


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Referência Bibliográfica:

Caldas, Davi (2016). Por que Jesus não condenou a mulher adúltera? Uma análise jurídica de João 8:1-11. Reação Adventista.

Comentários

  1. Muito interessante! Não tinha pensado sobre o lado jurídico dessa passagem.

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    1. De fato, quase sempre ignoramos as questões processuais em passagens como essa. Jesus, por sua vez, não se esqueceu e não se esquece de absolutamente nada.

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  2. A leitura dessa Palavra me ajudou a meditar como o Senhor Jesus levou pela sua misericórdia a questão do adultério,que pelo seu infinito amor, não veio para julgar e sim para salvar.

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