Conhecer as Escrituras Sagradas: Para os Presbíteros, Dever; Para a Irmandade, Bênção
Em um tempo onde opiniões rápidas e experiências superficiais frequentemente tentam ditar os rumos da fé, uma pergunta antiga volta a ecoar nos bancos da igreja: de quem é a responsabilidade de manejar bem as Escrituras Sagradas? Seria um privilégio — ou um fardo — exclusivo daqueles que sobem ao púlpito, ou o conhecimento da Palavra é uma engrenagem viva que envolve tanto a liderança quanto o povo?
Por um lado, o Novo Testamento estabelece que o conhecimento profundo das Sagradas Letras é uma obrigação irrevogável para os presbíteros. Longe de ser um mero cargo administrativo, o presbiterato exige a aptidão para o ensino e o apego firme à doutrina para guiar e proteger o rebanho.
Por outro lado, a irmandade não foi chamada à passividade ou à ignorância bíblica. Possuir um conhecimento seguro e fundamental das Escrituras é uma vacina contra os erros teológicos e a única base sólida para uma verdadeira caminhada diária com Cristo.
Nesta matéria, analisaremos essa questão com base no que dizem as Escrituras Sagradas.
1 - O Presbítero: Dever e Dedicação ao Ensino (Obrigação)
Para os líderes e presbíteros, o manejo, o estudo e o ensino das Escrituras não são opcionais, mas uma exigência ministerial para a preservação da sã doutrina e a salvação dos ouvintes:
· Apto para ensinar: o presbítero deve ter a capacidade de instruir a igreja. Base Bíblica: "Convém, pois, que o bispo [presbítero] seja... apto para ensinar." (1 Timóteo 3:2);
· Dedicado à leitura e ao estudo: a liderança exige um compromisso público e pessoal com o texto sagrado. Base Bíblica: "Persiste em ler, exortar e ensinar... Medita estas coisas; ocupa-te nelas, para que o teu aproveitamento seja manifesto a todos." (1 Timóteo 4:13,15);
· A Palavra é potente para salvar: o ensino fiel da Escritura gera salvação tanto para quem lidera quanto para quem ouve. Base Bíblica: "Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem." (1 Timóteo 4:16); e
· Manejo correto e refutação do erro: o líder precisa usar a Palavra para corrigir desvios. Base Bíblica: "Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina como para convencer os contradizentes." (Tito 1:9).
2 - A Irmandade: Investigação e Discernimento (Bênção):
Para a igreja (a irmandade), examinar as Escrituras é um privilégio que gera nobreza espiritual, proteção contra o engano e a capacidade de testar a fidelidade de qualquer pregação.
· Investigar para discernir a verdade: a igreja tem a liberdade e o dever de conferir se o que é pregado no púlpito está alinhado com a Bíblia. Os bereanos foram chamados de "nobres" justamente por essa prática. Base Bíblica: "Estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim." (Atos 17:11);
· Julgar e julgar tudo: a irmandade não deve aceitar cegamente toda profecia ou pregação, mas reter apenas o que for bom. Base Bíblica: "Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem." (1 Tessalonicenses 5:20-21); e
· Proteção contra falsos ensinos: O exame constante evita que a igreja seja levada por ventos de doutrina humana. Base Bíblica: "Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo." (1 João 4:1).
3 – Como Identificar um Novo Presbítero (nos moldes da igreja primitiva):
Na prática pastoral e administrativa da igreja, a identificação da aptidão para ensinar (διδακτικός - didaktikos) vai muito além de avaliar se o irmão fala bem em público. Devem ser usados critérios espirituais, teológicos e comportamentais (1 Timóteo 3:1-7; Tito 1:5-9), seguindo estes passos:
· Prática Gradual: observam a clareza e a didática do irmão em pequenos grupos e reuniões menores.
· Fidelidade Doutrinária: verificam se ele maneja a Bíblia corretamente e se submete à sã doutrina.
· Caráter Cristão: avaliam se ele possui mansidão, domínio próprio e bom testemunho familiar.
· Maturidade e Tempo: certificam-se de que ele não é novo convertido e demonstra sabedoria ao aconselhar.
Além dos critérios supracitados, o livro de Atos e as cartas pastorais mostram que a escolha e o estabelecimento desses líderes eram sempre santificados com oração, jejum e imposição de mãos:
· Atos 14:23 (Oração e Jejum na Escolha): "E, havendo-lhes, por comum consentimento, eleito presbíteros em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido."
· 1 Timóteo 4:14 (Aprovação e Profecia pelo Presbitério): "Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição das mãos do presbitério."
· 1 Timóteo 5:22 (Cuidado na Imposição de Mãos: "A ninguém imponhas precipitadamente as mãos, nem participes dos pecados alheios; conserva-te a ti mesmo puro."
· Atos 13:2-3 (O Modelo de Discernimento pelo Espírito):"E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram."
4 - Compartilhando Responsabilidades:
O Novo Testamento parece colocar o conhecimento bíblico como uma responsabilidade essencial de todo cristão. Textos como Colossenses 3:16 ("Habite ricamente em vós a palavra de Cristo, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com toda a sabedoria") e 1 Pedro 3:15 ("estai sempre preparados para responder a qualquer que vos pedir a razão da esperança") parecem mostrar que o exame das Escrituras é um mandamento para o crescimento e proteção de toda a igreja, e não um privilégio exclusivo do presbitério.
Para ensinar e admoestar com sabedoria, a igreja precisa conhecer o conteúdo da doutrina, e não apenas testemunhar experiências pessoais. Em 1 Pedro 3:15, a palavra grega usada é apologia (uma defesa racional e argumentativa), mostrando que o cristão comum precisava saber explicar o porquê de sua fé aos perseguidores, o que exigia o conhecimento das promessas e profecias das Escrituras.
Por fim, o exemplo dos Bereanos (Atos 17:11) foi motivo de elogio porque "examinavam cotidianamente as Escrituras para ver se estas coisas eram assim". Eles eram a "irmandade" comum, não presbíteros, e seu foco era o texto sagrado.
Uma vida com Jesus e o reconhecimento de Sua ação diária são fundamentais, mas a própria Bíblia mostra que a experiência diária é moldada e julgada pelo conhecimento das Escrituras. Sem o conhecimento bíblico, a irmandade fica vulnerável a:
· Confundir
as próprias emoções ou circunstâncias com a vontade de Deus.
· Ser enganada por falsos ensinos (Efésios 4:14 alerta a igreja a não ser "levada por todo vento de doutrina").
Conclusão: O Equilíbrio que Sustenta a Igreja
A saúde espiritual de uma comunidade parece depender deste
equilíbrio exato: líderes que dominam a fundo a Palavra para ensinar com
autoridade, e uma igreja que a conhece o suficiente para discernir a verdade e
fundamentar a sua própria fé. Quando uma dessas engrenagens falha, o corpo
sofre. Um presbitério sem profundidade bíblica deixa o rebanho desnutrido e
exposto a ventos de doutrina; por outro lado, uma irmandade que delega toda a
sua capacidade de leitura e discernimento aos líderes abre margem para a
dependência cega e a fragilidade espiritual.
O texto sagrado não propõe uma divisão entre
"intelectuais" e "leigos", mas sim uma cooperação mútua. O
conhecimento profundo do presbítero serve para guiar e edificar, enquanto o
conhecimento essencial e firme da igreja serve de solo fértil para que o ensino
floresça e produza frutos reais na vida diária. Afinal, a autoridade de quem
prega só faz sentido quando encontra o discernimento de quem ouve.
Que possamos, portanto, zelar por este modelo bíblico em
nossas comunidades. Que os nossos líderes nunca abram mão do estudo rigoroso,
incansável e zeloso das Escrituras. E que cada irmão e irmã redescubra o valor
e o dever de manusear a sua própria Bíblia, encontrando nela a rocha firme para
a sua fé e a régua para avaliar tudo o que é ensinado. Uma igreja madura é
aquela onde o púlpito e os bancos leem, compreendem e vivem a mesma Palavra.
Clique no vídeo e assista a história dos habitantes de Beréia.




Comentários
Postar um comentário