A dignididade do cristão genuíno tem nome: chama-se Jesus Cristo
Marcelo Victor R. Nascimento
Existe uma ilusão sutil e perigosa que frequentemente
se aloja no coração dos crentes: a ideia de que, após a conversão, nós passamos
a merecer algo da parte de Deus. Começamos a acreditar que nossas orações são
respondidas porque jejuamos, porque lemos a Bíblia ou porque alcançamos um
"nível superior" de santidade.
Mas a verdade nua e crua das Escrituras desmorona o
orgulho religioso. Mesmo depois de genuinamente convertidos, nós continuamos
completamente indignos de entrar na presença de Deus. Se achamos que merecemos
qualquer coisa da Sua parte por nossos próprios méritos, ainda não
compreendemos a profundidade do Evangelho.
1 - A Realidade da Nossa Carne: Ainda
Somos Maus
O novo nascimento transforma o nosso espírito, mas a
nossa carne continua inclinada ao erro.
A verdade que o legalismo tenta esconder é que as
nossas obras diárias, por si mesmas, continuam merecendo o castigo. Se Deus
aplicasse a Sua justiça estrita sobre o nosso desempenho diário, nenhum de nós
ficaria de pé. O profeta Isaías já nos alertava que até as nossas melhores
justiças não passam de “trapos de imundícia” diante de um Deus
infinitamente santo (Isaías 64.6).
O próprio Jesus, ao ensinar sobre a oração e a
paternidade divina, foi categórico ao olhar para os Seus discípulos e dizer: “Se
vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos...” (Mateus
7.11). Note que Ele não disse “vós, que éreis maus”, mas “sendo maus”. A
nossa natureza humana, à parte da intervenção divina, permanece falha e
pecadora.
2 - O Sangue e o Nome: A Nossa
Dignidade é Cristo
Se continuamos pecadores e indignos, como podemos nos
aproximar de Deus? A resposta é simples e gloriosa: a nossa dignidade está
inteiramente em Jesus Cristo e na Sua obra de amor.
Deus atende os cristãos por causa da obra d'Ele, e não por causa das obras de cada um. O acesso ao Santuário não foi conquistado pelo nosso currículo espiritual, mas pelo sacrifício definitivo: “Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no Santuário, pelo sangue de Jesus...” — Hebreus 10.19
Quando Jesus nos ensinou a orar em Seu Nome (João 14.13), Ele não estava nos dando uma "fórmula mágica" para encerrar as orações. Orar em Nome de Jesus significa apresentar-se diante do Pai dizendo: “Deus, eu não tenho direitos, mas vim baseado nos créditos e nos méritos de Cristo”. Apresentar o Nome de Jesus é reconhecer que a nossa dignidade é emprestada. Quando Deus nos olha, Ele não vê a nossa miséria; Ele vê a justiça perfeita de Jesus nos cobrindo.
3 - A Kenosis Radical e o Fim do
Orgulho Religioso
Essa realidade brilha de forma ainda mais intensa sob a luz da Kenosis Radical (Filipenses 2:7). Para nós, unicistas, a graça ganha um peso supremo quando entendemos quem morreu naquela cruz. Não foi uma "segunda pessoa" menor ou um intermediário enviado por Deus. Foi o próprio Yahweh, o Único Deus, que se esvaziou de Si mesmo (dos atributos de poder) e assumiu a nossa condenação em Sua própria pessoa santa, única e maravilhosa!
O Deus que enche os céus e a terra desceu à nossa
baixeza, experimentou as nossas limitações e pagou o preço que nós jamais
poderíamos pagar. Ele fez isso sabendo que continuaríamos falhos. Ele se
esvaziou para que nós, em nossa miséria, fôssemos preenchidos com a Sua
justiça.
Conclusão: Rompendo com a Barganha
Espiritual
Compreender que somos indignos, mas totalmente aceitos
em Cristo, gera em nós um impacto duplo:
1.Mata o Legalismo: você para de achar que Deus te
abençoa porque você foi "bom" ou que Ele te rejeita nos dias de
fraqueza. O amor de Deus por você está ancorado na perfeição de Jesus, não na
sua oscilação diária.
2.Elimina a Soberba: não existe "crente
superior". Somos todos pecadores dependentes da mesmíssima graça.
Descanse na obra de Cristo. Pare de tentar comprar com obras aquilo que Ele já pagou com sangue. A nossa justiça é falha, mas a d'Ele é eterna.
Reflexão Final: a grande verdade das Escrituras Sagradas é que, de uma maneira real e concreta, em Jesus: o infinito Deus se fez finito; o eterno Deus limitou-se no tempo; o Deus imortal se fez mortal e morreu por nós; o onipotente Deus limitou-se ao poder humano; o onipresente Deus se fez apenas presente; o onisciente Deus cresceu em sabedoria e aprendeu a obediência por aquilo que padeceu; o imutável Deus mudou com o tempo [não em termos morais]; o Deus invisível se revelou aos homens; o Senhor de todas as coisas se fez servo; Aquele que não pode ser tentado deixou-se tentar; e Aquele que é três vezes santo se fez maldição por nós.
Referência
Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Santíssima Trindade, quase dois mil anos de engano religioso. Joinville: Clube de Autores.



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