"Violência ao Reino dos Céus, e pela força se apoderam dele" (Mateus 11:12)
Marcelo Victor R. Nascimento
Há uma passagem que vem sendo discutida aos
longos dos séculos na busca de identificar com correção o que Jesus quis dizer
com suas palavras, qual seja: “E, desde os dias de João o Batista até
agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele”
(Mateus 11:12).
Com vistas a apimentar as discussões, apresento minha opinião sobre a
intenção de Jesus ao dizer essas palavras abençoadoras, através de uma síntese teológica que une as dimensões externa
(histórica) e interna (espiritual) em um único movimento de "resistência"
ao progresso do Reino de Deus.
1. O Reino sob Cerco (A Dupla Barreira)
Segundo as palavras de Jesus, o Reino de Deus é uma força que tenta avançar, mas encontra duas frentes de resistência:
- A Barreira Institucional/Sistêmica: representada pelos fariseus e pelo sistema político (Herodes) que haviam prendido João Batista quando Jesus proferiu essas palavras. Eles tentam "bloquear" a entrada do Reino no mundo através da perseguição e do legalismo.
- A Barreira Antropológica (O Coração): o próprio homem oferece resistência. É o "homem natural" que não aceita as coisas do Espírito (1 Coríntios 2:14).
Nesse sentido, a "violência"
que o Reino sofre é o esforço do mundo e do ego para impedir que a soberania de
Deus se estabeleça. O Reino é "agredido" pela
indiferença, pelo pecado e pela perseguição.
2. A "Contra-Violência" dos Salvos (O
Esforço de Guerra)
Para entrar em um Reino que está sob ataque, o candidato não pode ser passivo.
- Violência com Violência: não se trata de agressão física (conforme Jesus ensinou em Mateus 26:52), mas de uma violência de espírito. Se o pecado é violento e o mundo é hostil, o cristão responde com uma "violência santa": uma determinação inquebrável, um esforço que ignora o cansaço e uma disciplina que esmurra o próprio corpo (como Paulo em 1 Coríntios 9:27).
- Vencer pelo Combate: isso se alinha perfeitamente com a ideia de que "o Reino de Deus é tomado por esforço". Os "violentos" são aqueles que, vendo as barreiras externas e internas, decidem "forçar a entrada" através da fé e do arrependimento radical.
3. O Reino como "Invasão" da Realidade
Comum
Interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o Reino de Deus, Jesus respondeu: "o Reino de Deus está entre vós" (Lucas 17:21). Ele mostrou que os religiosos buscavam sinais astronômicos e políticos enquanto o Reino já estava operando bem diante deles.
- O Reino está "entre vós": Jesus é a personificação desse Reino. Onde Ele está, o governo de Deus está ativo.
- A Violência: o sistema religioso e o ego humano sentem-se agredidos por essa presença, pois Jesus não se encaixa nas expectativas humanas. O Reino "força" sua entrada na história humana, quebrando a lógica do mérito e da lei para estabelecer a lógica da Graça.
Nota: a afirmação de que o Reino está "dentro" ou
"no meio" de nós transforma o ser humano no campo de
batalha. As "barreiras e forças" (fariseus, escribas,
sistema mundano) tentam, o tempo todo, invadir o seu interior para retomar o
controle. Quando uma pessoa decide que o Reino de Deus governará sua mente, ela
sofre "violência" dos seus próprios desejos (a carne).
Os "violentos" que se apoderam do Reino são aqueles que tratam a
santificação com a seriedade de uma guerra, não permitindo que influências
externas ou inclinações internas roubem a paz e a justiça de Cristo que já
estão disponíveis no interior.
4. A Invisibilidade Exterior e a Intensidade
Interior
Como o Reino não vem com "aparência exterior" (visibilidade física), a luta para se apoderar dele ocorre no campo da percepção e da vontade.
- A "Força" da Fé: é preciso uma força espiritual para crer no invisível. Os "violentos" são aqueles que rompem com a evidência dos olhos (o mundo físico e suas tentações) para se agarrarem à realidade do Reino espiritual.
- O Homem Interior: se o Reino é interior, a "violência" mencionada por Jesus em Mateus é a persistência espiritual. É o esforço de manter o coração focado no governo de Deus enquanto o "mundo exterior" e a "carne" puxam para a direção oposta.
Nota: se o Reino não vem com "aparência exterior", ele exige um esforço extra para ser percebido. O mundo físico, com suas dores, prazeres e pressões políticas, é muito "barulhento". Para se apoderar de algo que não se vê com os olhos, o homem precisa "vandalizar" sua própria lógica racionalista e materialista. Essa é a força da fé: uma resistência contra a ditadura dos sentidos físicos para priorizar a soberania de Deus no coração.
5. A Substituição de Governos
O Reino é estabelecido através de uma substituição: sai o "eu" (vontade pecaminosa) e entra "Ele" (Jesus Cristo).
- O Trono do Coração: para que Deus reine em nossos corações, o ocupante anterior (o ego) precisa ser "violentado" ou destronado.
- A Força do Alto: Lucas 17:21 mostra que o Reino já está disponível ("está entre vós"), mas João 3:27 e 15:5 explicam que o acesso a ele depende de uma conexão vital com a Videira. O homem exerce a disposição (a força de querer), mas o Reino se manifesta pela capacitação divina.
Nota: o homem por si só nada pode fazer (João 3:27). A presença de Jesus "entre vós" é a fonte da força necessária. O esforço humano não é para criar o Reino, mas para render-se a ele e expulsar o que é contrário a ele [é o paradoxo cristão: vencemos quando somos vencidos por Deus]. "Apoderar-se pela força" aqui significa a determinação inabalável de permanecer ligado à Videira (João 15:5), custe o que custar à nossa própria vontade.
6. Por que essa visão é robusta?
1.Harmonia com as Parábolas: essa visão nos faz lembrar da parábola do
"Tesouro Escondido" e da "Pérola de Grande Valor". Em ambos
os casos, o homem vai e vende tudo o que tem. Essa renúncia total é uma
forma de "violência" contra a segurança pessoal e o
apego material.
2.Equilíbrio entre Graça e Esforço: o homem "combate"
(esforço humano), mas o objetivo é "apoderar-se" de
algo que vem do alto (uma provisão divina).
3.Realismo Bíblico: a vida cristã não é uma "colônia de
férias", mas uma milícia. Jesus nunca prometeu facilidade,
mas sim que "no mundo tereis aflições".
7. Síntese da sua Estrutura Teológica
|
Conceito |
Referência |
Aplicação na sua Análise |
|
Localização |
Lucas 17:21 |
O Reino é interior; a luta é no "Homem
Interior". |
|
Conflito |
Mateus 11:12 |
O sistema e o ego tentam bloquear o governo de Deus. |
|
Ação |
1 Coríntios 9:27 |
"Violentar" a vontade pecaminosa para manter
o Reino. |
|
Capacitação |
João 15:5 |
O esforço só é eficaz se vier da união com Cristo. |
Conclusão da Análise:
Essa visão evita o erro de achar que o Reino é puramente político (Guerra Santa) ou puramente passivo (Quietismo). Integrando Lucas 17:21 com Mateus 11:12 é possível dizer que:
1.O Reino é Presente: não é algo que estamos esperando; é algo que
está "entre nós" agora.
2.O Reino é Exigente: por ser espiritual e interno, ele exige uma
reação radical (violência contra o pecado, contra as forças do mal e contra a
incredulidade).
3.O Reino é uma Pessoa: entrar no Reino é, em última análise, estar
"em Cristo".
Essa compreensão transforma a vida cristã de uma
"espera passiva" para uma "busca ativa e
vigorosa", onde o crente usa toda a sua energia interior para se
submeter à vontade de Deus, sabendo que o Reino já irrompeu na história através
de Jesus.
Resumindo, o Reino de Deus sofre violência
(é perseguido e rejeitado pelo ego e pelas forças do mal, que, por vezes, usam pessoas
contra os cristãos), e apenas os "violentos" (aqueles que
lutam contra o próprio pecado e contra as pressões do mundo com vigor
espiritual) conseguem se estabelecer nele (são vitoriosos).


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