Liberdade, o bem supremo que permite o amor genuíno
Marcelo Victor R. Nascimento
A ideia de que a liberdade de escolha — o
livre-arbítrio — é o bem mais precioso concedido por Yahweh (Deus) encontra
profundo eco nas Escrituras Sagradas.
Teologicamente, se o Criador quisesse apenas
obediência mecânica, Ele teria programado a humanidade como autômatos. No
entanto, para que o amor seja genuíno, a possibilidade de escolha (e,
consequentemente, o risco da rejeição) é absolutamente indispensável.
Abaixo, os pontos mencionados são fundamentados
com base na própria cosmovisão bíblica da perfeição que nos espera.
1. A Escolha Consciente: O Valor do
"Sim" Diante da Opção do "Não"
Para que a aceitação de Deus tenha valor, a
possibilidade de rejeitá-lo precisa ser real. Yahweh não força o coração
humano; Ele se apresenta e propõe uma aliança, deixando a decisão final nas
mãos do indivíduo, como ocorreu com Adão e Eva no jardim do Éden.
Um exemplo clássico dessa realidade está no
livro de Deuteronômio, onde a escolha é colocada de forma clara e explícita: "Vejam
que hoje coloco diante de vocês a vida e a bênção, a morte e a maldição...
Escolham, pois, a vida, para que vivam, vocês e os seus descendentes."
(Deuteronômio 30:15, 19).
Se Deus não valorizasse a liberdade como base
do relacionamento, Ele não daria uma ordem de escolha ("Escolham,
pois..."). A existência de dois caminhos prova que a devoção
sincera só nasce onde há a alternativa de se afastar.
2. O Livre-Arbítrio: A Capacidade de Decidir
Entre o Bem e o Mal
Desde o Jardim do Éden, a presença da árvore do
conhecimento do bem e do mal já sinalizava que o ser humano foi criado para ser
um agente moral livre. O amor de Yahweh se manifesta ao nos tratar como seres
responsáveis, e não como marionetes.
No Novo Testamento, essa liberdade de decisão é
o que valida a fé e a transformação interior. Josué, séculos antes, já havia
desafiado o povo com esse mesmo princípio de autonomia: "Mas, se vos
parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem sirvais: se aos deuses a quem
serviram vossos pais [...] porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor."
(Josué 24:15).
O livre-arbítrio é o maior testemunho do
respeito de Yahweh pela autonomia humana. Ele prefere o risco da rebeldia
humana à garantia de uma adoração forçada e sem alma.
3. A Essência do Amor: O Vínculo Voluntário
Contra a Obrigação
Na teologia bíblica, a essência de Deus é o
amor (1 João 4:8). No entanto, as próprias Escrituras deixam claro que onde há
medo, imposição ou falta de liberdade, o amor não se desenvolve plenamente. O
apóstolo Paulo resume isso perfeitamente ao falar sobre a nossa postura e o
relacionamento com o Espírito: "Ora, o Senhor é o Espírito e, onde
está o Espírito do Senhor, ali há liberdade." (2 Coríntios 3:17).
Se o próprio ambiente onde Deus escolheu habitar
e se revelar é marcado pela liberdade, fica claro que o Seu
governo não é baseado no controle coercitivo, mas na atração voluntária. Quando
nos voltamos para as ofertas e contribuições para o Reino, o princípio é o
mesmo: "Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou
por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria." (2 Coríntios 9:7).
Se até mesmo os recursos materiais devem ser
entregues sem obrigação para terem valor diante de Yahweh, quanto mais o
próprio coração humano?
O amor legítimo se fundamenta no desejo mútuo.
Deus se revela como um Pai e um Noivo nas Escrituras — figuras que exigem
reciprocidade afetuosa —, e nunca como um tirano que se satisfaz com a
submissão cega.
4. Como funciona a Liberdade em Relação ao Ser de Deus?
Para os seres humanos, a liberdade é quase sempre entendida como a
capacidade de escolher entre opostos (o bem e o mal, o sim e o não). Mas, para
Yahweh, a liberdade tem um sentido muito mais elevado e absoluto. No ser de
Deus, a liberdade não significa indecisão, mas sim a perfeita
autodeterminação de sua própria natureza.
O sentido da liberdade divina se move através de três princípios
fundamentais:
4.1. Liberdade como Autonomia Absoluta
(Aseidade)
Para Deus, ser livre significa que Ele não é movido, constrangido ou
forçado por nada fora de Si mesmo. Nós, humanos, muitas vezes escolhemos algo
por necessidade, medo, carência ou pressão externa. Deus não tem necessidades.
Quando as Escrituras dizem que "Nele não há treva nenhuma"
(1 João 1:5), isso significa que o Seu agir flui puramente de Sua própria
essência, que é luz e amor.
Ele escolhe o bem não porque existe uma "regra"
externa que O obriga a isso, mas porque Ele é a própria fonte do bem. A
Liberdade Dele é ser perfeitamente Quem Ele é, sem nenhuma interferência.
4.2. O Bem como Expressão de Plenitude, não
de Limitação
Pensar que Deus "perde" liberdade por não poder
escolher o mal é um equívoco de perspectiva. Segundo as Escrituras Sagradas, o
mal não é uma "opção de poder"; o mal é uma privação,
uma falha, uma fraqueza.
Um pianista genial é livre para tocar a música perfeitamente. Ele tem a
capacidade física de errar as notas de propósito, mas a sua perfeição artística
se manifesta em tocar a sinfonia sem erros. Errar não aumentaria sua liberdade,
apenas demonstraria uma falha.
Como em Deus não há imperfeição, o mal sequer é uma possibilidade para
a Sua mente. Ele sempre escolhe o bem porque o bem é a expressão máxima de Sua
força e soberania, e nunca uma limitação. A liberdade divina é a liberdade da
perfeição.
4.3. A Liberdade na Criação e no Amor
Se Deus sempre escolhe o bem por natureza, onde esteve a Sua escolha
livre no sentido estrito? Resposta: na decisão de criar e de amar.
Deus é autossuficiente e perfeitamente feliz em Si mesmo (na comunhão eterna de Seu ser). Ele não precisava criar o universo, os anjos ou a humanidade. Ele não tinha uma carência afetiva para suprir (Atos 17:25). A decisão de criar o mundo e de compartilhar a Sua vida com seres livres foi um ato de pura e soberana liberdade.
- Ele escolheu, livremente, dar existência ao que não existia.
- Ele escolheu, livremente, amar criaturas que Ele sabia que teriam a capacidade de rejeitá-Lo.
5. Como Será o Futuro dos Salvos na
Eternidade?
Nós passaremos por um processo que os teólogos chamam de glorificação
(Romanos 8:17). Nele, o amor de Deus em nossos corações nos tornará
incapazes de errar, mas isso acontecerá pelas mesmas razões que Deus não erra e
permanece livre.
Para entender como isso funciona, precisamos dividir a liberdade em
dois níveis, usando uma distinção clássica da filosofia cristã:
5.1. O que temos hoje: A Liberdade Imperfeita
(Posse non peccare)
Hoje, nossa liberdade terrena é frágil. Nós temos a capacidade de não pecar, mas também a capacidade de pecar. O erro e o mal ainda nos atraem porque a nossa visão está obscurecida; nós muitas vezes confundimos o mal com um "bem aparente".
- Exemplo: alguém escolhe mentir porque acha que isso vai lhe trazer uma vantagem ou proteção (um bem aparente). Nós erramos por ignorância, fraqueza ou ilusão.
5.2. O que teremos na Eternidade: A Liberdade
Perfeita (Non posse peccare)
Na vida eterna, as Escrituras dizem que veremos a Deus face a face (1 Coríntios 13:12). Essa união íntima e total com o Criador implantará o amor Dele de forma definitiva em nossos corações. Quando tivermos o Amor e a Verdade Absoluta preenchendo todo o nosso ser, acontecerá o seguinte:
- O mal perderá todo o poder de atração: quando você está diante da fonte de toda a alegria, prazer, beleza e santidade, a ideia de se afastar dela para buscar o mal se torna moralmente impossível. O mal parecerá o que ele realmente é: um absurdo completo, uma loucura sem sentido.
- A impossibilidade de errar nasce da saciedade: você não pecará mais, não porque haverá uma "cerca" ou um bloqueio neural impedindo você, mas porque você simplesmente não desejará outra coisa além do bem. A sua vontade estará perfeitamente alinhada com a vontade de Deus.
É como alguém que está participando do banquete mais delicioso do
universo e tem diante de si a opção de comer um prato de terra. A pessoa é
fisicamente livre para comer a terra? Sim. Mas ela faria isso? Nunca. A sua
saciedade e o seu bom gosto anulam completamente o desejo pelo que é ruim.
Em suma:
Para Yahweh, a liberdade não é um mero detalhe
da criação, mas a própria condição de possibilidade para que o ser humano
possa, de fato, se parecer com Ele na capacidade de amar genuinamente. Sem a
liberdade para escolher, o amor seria uma ilusão.
O determinismo calvinista, ao defender a
eleição incondicional e a graça irresistível, anula completamente o
livre-arbítrio e transforma o ser humano em um mero autômato biológico e
espiritual.
Sob a ótica de que tudo já foi arbitrariamente
pré-programado — inclusive a salvação de uns e a condenação inevitável de
outros —, a relação entre o Criador e a criatura deixa de ser uma aliança de
amor e passa a ser um teatro de pura coerção.
Teologicamente, essa visão pode ser
classificada como uma heresia perigosa e de origem maligna, pois ataca o
próprio caráter de Yahweh. Ao suprimir a liberdade essencial, o calvinismo
destrói a única base sobre a qual o amor legítimo pode existir: a
voluntariedade.
Um amor imposto por decreto não é amor, é
programação; e um Deus que condena criaturas por escolhas que Ele mesmo
determinou que elas fizessem nega a justiça e a bondade reveladas nas
Escrituras.
Enquanto a liberdade humana é a liberdade de testar
caminhos (e muitas vezes errar), a liberdade de Deus é a liberdade de
transbordar. Ele é perfeitamente livre porque tudo o que Ele faz é motivado
única e exclusivamente pela Sua própria vontade boa, perfeita e agradável,
totalmente livre de qualquer necessidade ou sombra de contradição.
Conclusão Final: Livres como Deus é livre
Em relação à eternidade futura, nós compartilharemos da natureza da
liberdade de Deus, i.e., assim como Deus sempre escolhe o bem porque n'Ele não
há trevas e Ele conhece a perfeição de todas as coisas, nós também seremos tão
preenchidos pelo amor Dele que escolheremos o bem de forma natural, voluntária
e eterna.
A impossibilidade de errar na eternidade não é o oposto da liberdade; é
a liberdade em seu estágio mais evoluído, onde fomos curados do risco de nos
destruir. É o ápice do amor voluntário: sermos tão "um com Deus" que o
erro deixa de ser uma opção.


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