Fé ou Obediência? A Verdade Oculta Atrás do Clichê Teológico
Marcelo Victor R. Nascimento
No meio teológico, é muito comum ouvirmos a frase: "A fé nos salva, e as obras apenas provam isso". Mas a verdade bíblica é mais profunda e dinâmica. A salvação não é um evento que terminou no dia em que aceitamos a Jesus Cristo; é uma jornada que exige perseverança até o fim (Mateus 24:13).
A fé é o que nos insere nessa caminhada
através do arrependimento e do batismo [a primeira demonstração de fé], mas a
obediência diária é o que nos mantém no caminho. Se pararmos de obedecer,
paramos de caminhar. Portanto, a obediência não é um mero anexo da fé; ela é a
própria fé perseverando dia após dia até o alvo final.
Para compreender essa engrenagem viva,
precisamos olhar para o que a própria Escritura diz sobre a anatomia de uma fé
real.
1 - O Exemplo de Abraão:
Quando a Fé Ganha Corpo
Muitos tentam separar a fé das obras como
se fossem duas gavetas independentes. No entanto, Tiago desmonta essa visão
estática usando justamente o maior exemplo de fé do Antigo Testamento: Abraão:
"Vedes como a fé operou com as suas obras, e como pelas obras a fé foi
aperfeiçoada? E cumpriu-se a Escritura, que diz: Creu Abraão em Deus, e foi-lhe
isso imputado como justiça..." (Tiago 2:22-23)
Tiago é categórico ao afirmar que a fé sem obras é morta (Tiago 2:26), i.e., Abraão não foi justificado por uma crença meramente intelectual ou passiva. A fé dele só se tornou "perfeita" — ou seja, completa — quando ele saiu do meio da sua parentela sem saber para onde ia, obedecendo ao mandado de Deus, e quando levantou as mãos para sacrificar o próprio filho no altar que construiu, em obediência ao mandamento de Deus.
As obras de Abraão não foram um "efeito
colateral" opcional; elas foram a própria expressão visível de sua
confiança.
2 - O Termômetro do Amor,
Segundo Jesus
Se a teologia de Tiago parece dura para
alguns, as palavras do próprio Senhor Jesus são ainda mais diretas e cortantes.
Ele redefiniu o que significa "amar a Deus" e "crer n'Ele",
tirando o debate do campo do sentimento e trazendo-o para o campo da prática:
·
João 14:21: "Aquele que tem
os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama..."
·
João 14:15: "Se me amais,
guardais os meus mandamentos."
Para Jesus, não existe amor a Deus sem a
guarda dos mandamentos, como Ele próprio demonstrou durante toda a Sua jornada
terrena. Alguém pode cantar, pregar e professar fé, mas se não houver a
obediência prática no secreto e no cotidiano, essa estrutura desmorona. A
obediência é o termômetro legal da nossa aliança com o Criador.
3 - A Sinergia da Salvação:
Nossa Disposição, a Capacitação de Deus
É fundamental compreender, no entanto, que
essa obediência não nasce da força do braço humano. A nossa capacidade para
realizar qualquer obra que preste vem exclusivamente de Deus e não de nós
mesmos, pois o próprio Jesus alertou: "sem mim nada podeis fazer"
(João 15:5).
Todavia, embora a força venha d'Ele, em
nós tem que estar a disposição de inclinar o nosso coração à obediência.
Quando nos posicionamos, o Espírito do Senhor nos capacita para aquilo que
fomos chamados a viver. É por isso que o apóstolo Paulo equilibra essa balança
de forma perfeita em sua carta aos Filipenses: "Assim, pois, amados
meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais
agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e
tremor;" (Filipenses 2:12)
Existe uma parte que nos cabe: o "desenvolver" a salvação através de uma postura de temor, tremor e inclinação voluntária à Palavra [nos nossos corações]. E o que acontece com aqueles que decidem inclinar o coração a essa obediência? O versículo seguinte responde imediatamente: "...porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade." (Filipenses 2:13)
A engrenagem espiritual funciona assim:
nós oferecemos a disposição e o temor; Deus entra com o poder absoluto que gera
em nós tanto o desejo sincero (o querer) quanto a capacidade prática de
obedecer (o realizar).
4 - Algumas bases
bíblicas
Dizer que podemos entrar
no céu sem obedecer é pregar uma falsa graça. A Bíblia é categórica:
(1) Em Mateus 7:21, Jesus
mostra que o acesso ao céu não é garantido por palavras, aclamações religiosas
ou mesmo por milagres, mas sim pela ação prática de fazer a vontade de Deus,
o que é a definição exata de obediência;
(2) Em Hebreus 5:9, o
escritor bíblico restringe o alcance da salvação eterna, mostrando que embora
Jesus seja potencialmente o Salvador de todos, Ele é a causa da salvação
especificamente para os que Lhe obedecem.
(3) Em 1 Coríntios 6:9-10, o autor lista uma série de práticas que excluem o homem do Reino de Deus, o que significa que a rebeldia contra o padrão moral estabelecido por Ele é a própria desobediência em ação, e o veredito bíblico é que tais pessoas não herdarão o céu.
Conclusão: A Fé que Caminha
A salvação começa com a fé que nos
justifica e nos conduz ao batismo, mas se sustenta na fé que obedece e
persevera. Não fomos chamados para uma fé de poltrona, mas para uma corrida de
resistência onde a graça de Deus nos sustenta enquanto os nossos pés se movem
em direção aos Seus mandamentos. Essas são as palavras do apóstolo
Paulo em 1 Coríntios 9:24-27, quando usa a metáfora de uma corrida para
incentivar os cristãos a correrem de maneira a alcançar a vitória, destacando
que os atletas abrem mão de muitas coisas por um prêmio passageiro, enquanto o
prêmio deles é eterno.
Se você diz que crê, mas as suas decisões
diárias não refletem o desejo de inclinar o coração à verdade, é hora de
avaliar se a sua fé está viva ou se é apenas um conceito religioso sem poder de
transformação.
Lembremo-nos de que a obediência é a
maior expressão de fé, porque
ela tira a crença do campo intelectual e a transforma em ação prática. Crer é
apenas o ponto de partida; obedecer é a própria fé perseverando em movimento,
provando que você confia o suficiente na Palavra de Deus a ponto de alinhar a
sua vida e as suas decisões a ela.


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