Crítica ao Triunfalismo Pregado nas Igrejas
Marcelo Victor R. Nascimento
Em muitos púlpitos, o que se
vê nas últimas décadas é uma substituição perigosa da Teologia da Cruz
pela Teologia da Glória, algo que não representa apenas um erro
teológico, mas uma verdadeira patologia da adoração do “eu”.
As igrejas — outrora lugar
de arrependimento e contrição — foram transformadas em verdadeiros palcos de
entretenimento emocional e balcão de negócios espirituais, onde o triunfalismo
impera soberano, com as seguintes características: mentalidade que
supervaloriza a vitória terrena, a prosperidade material e o sucesso pessoal,
apresentando um cristianismo sem sofrimento ou renúncia.
Reflitamos sobre essa triste
realidade e suas consequências nefastas e vejamos se a nossa denominação
religiosa está enquadrada nela.
1. A Metamorfose do Culto:
Da Confissão à Performance
O triunfalismo das últimas décadas alterou a genética da liturgia. O fiel não entra mais pelas portas da igreja para dizer "Tem misericórdia de mim, pecador", mas para exigir "Dá-me Senhor o que é meu por direito".
- O Fim da Adoração Desinteressada: Deus deixou de ser o objeto da adoração por quem Ele é, tornando-se o fiador dos desejos do povo.
- A Droga da Emoção: o culto passou a ser medido pela "dose de emoção" [chamado de “virtude”] e pela promessa de cura e milagre. Se não houve arrepio ou promessa de sucesso, o triunfalista sente que o culto foi em vão.
2. A Negação da Humanidade e
o "Pseudo Triunfalismo"
O púlpito moderno tornou-se um laboratório de criação de "super-homens" espirituais. Ao induzir o fiel a acreditar que o fracasso é impossível, criou-se uma geração de pessoas emocionalmente frágeis e espiritualmente presunçosas.
- A Proibição da Fraqueza: há uma pressão invisível para esconder rachaduras no caráter ou na saúde mental. Admitir uma depressão ou um erro ético é visto como "falta de fé", o que empurra o crente para um isolamento hipócrita.
- A Superioridade Ilusória: o fiel é convencido de que é "superior aos demais mortais". Essa arrogância o afasta do próximo e do próprio Deus, pois ele se aproxima do Criador apenas pelo que pode extrair de Suas mãos.
3. O Pentágono do
Antropocentrismo
Essa teologia triunfalista
é, na verdade, um mergulho no “eu”, no “aqui” e no “agora”.
Ela se sustenta sobre cinco pilares que sustentam uma fé de vidro:
|
Pilar do Triunfalismo |
Impacto na Vida do Fiel |
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Amnésia do Pecado |
Sem consciência do pecado,
não há necessidade real de graça, apenas de "ajustes de percurso". |
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A Utopia do Sucesso |
Uma vida pautada no sonho
de que "tudo vai dar certo" gera crises de fé profundas quando a
tragédia inevitável bate à porta. |
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Púlpitos de Adulação |
Mensagens superficiais
feitas para agradar o ouvinte transformam o pastor em um coach e a
congregação em uma plateia. |
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Demonização da
Responsabilidade |
Ao crer que todo problema
é causado pelo diabo, o indivíduo nunca assume a responsabilidade por suas
escolhas e falhas. |
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Pensamento Positivo |
A fé cristã é substituída
por uma filosofia secular travestida de religiosidade, onde a "confissão
positiva" substitui a oração de entrega. |
4. A Idolatria do
Crescimento Numérico
O que se percebe na maioria das igrejas é uma obsessão por estatística.
- O Erro: o sucesso empresarial foi transposto para o eclesiástico. Se a igreja não cresce, o líder é visto como falho.
- A Realidade: a igreja transformou-se em uma espécie de "balcão de negócios", com pessoas buscando algum benefício material através prestígio [fama].
5. A Ilusão da Superioridade
Moral
O triunfalismo cria uma casta de "super-crentes". Ao ignorar a realidade de que a glória de Deus foi colocada em vasos de barro, a igreja passa a exigir uma santidade aparente.
- Moral de Anjos: acostumados com pregações triunfalistas a igreja passa a ser uma comunidade de hipócritas que esconde suas feridas para manter a imagem de "vitoriosos".
- A Queda Esquecida: pela falta de exortação com base nas Escrituras Sagradas, o povo esquece que o pecado continua a afetar o crente. O sentimento de superioridade traz a perda da capacidade de exercer a misericórdia, que é a base do testemunho cristão.
6. A Arrogância Intelectual
e o Medo da Dúvida
Talvez um dos efeitos mais devastadores do triunfalismo seja a morte do pensamento crítico.
- Incerteza como Pecado: no ambiente triunfalista, a dúvida é vista como fraqueza de fé. Isso cria cristãos rasos, que têm respostas prontas para perguntas que nunca fizeram.
- Soberba da Razão: a pessoa dominada pela teologia triunfalista ignora que sua própria mente é limitada e afetada pelo pecado. Ele se torna dono da verdade, incapaz de dizer "eu não sei".
O Diagnóstico Final
O triunfalismo acaba por criar
um cristianismo sem cruz, um Cristo sem sofrimento e uma igreja que, ao tentar
ser poderosa aos olhos do mundo, torna-se irrelevante para o Reino de Deus.
Há que se resgatar o direito
de os cristãos serem humanos, falíveis e dependentes de uma graça que não se
compra com "pensamento positivo", mas que se recebe de
joelhos, a velha comunidades de pecadores perdoados, por Aquele que nasceu numa
manjedoura e não tinha onde reclinar Sua cabeça.
Se a igreja foge disso, ela
foge do próprio Cristo.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2022). As pregações na Congregação Cristã no Brasil. Joinville: Clube de
Autores.


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