O papel de Judas Iscariotes sob a ótica do Molinismo

 

Imagem gerada pelo Google AI, 2026.

Marcelo Victor R. Nascimento


Introdução

Entender o papel de Judas Iscariotes sob a ótica do Molinismo é mergulhar em um dos equilíbrios mais sofisticados entre a "soberania divina" e a "liberdade humana".

O Molinismo foi um sistema soteriológico desenvolvido pelo jesuíta Luís de Molina no século XVI que possui como premissa básica o fato de Deus conhecer de antemão o que qualquer criatura livre faria em qualquer circunstância possível, i.e., Ele conhece as pessoas tão profundamente [o caráter de cada uma delas] que sabe como suas vontades reagiriam a qualquer estímulo ou situação, sem que isso anule suas liberdades [uma intuição divina].

Isso ocorre, porque, ao ter plantado nas criaturas a semente da liberdade libertária quando as criou conforme a Sua imagem e semelhança, Deus obrigou-se a não exercer o controle sobre o coração, a mente e a personalidade de nenhuma das criaturas, de sorte que a causa última das escolhas é o próprio agente livre.

Tal premissa faz com que o Molinismo seja diferente da corrente soteriológica Calvinista [para a qual Deus decreta todas as coisas] e da corrente soteriológica Arminiana Clássica [para a qual Deus apenas prevê o que acontecerá].

Analisemos o papel de Judas sob a ótica Molinista.


1. Graça Suficiente vs. Graça Eficaz

Para o Molinismo, Deus concede graça suficiente a todos os seres livres para se salvarem, inclusive àqueles que Ele sabe que a rejeitarão [como Judas].

  • O Ato de Suportar: a paciência que Jesus teve com Judas não foi uma "encenação". Em virtude de conhecer as possibilidades e o caráter de cada indivíduo, Deus sabia que, embora Judas tivesse liberdade para se arrepender, ele não o faria.
  • A Proporção de Chance: ao oferecer as mesmas oportunidades a Judas que ofereceu aos demais apóstolos, Deus demonstrou Sua justiça, de sorte que nem ele e nem ninguém poderá alegar que foi privado do auxílio divino. A diferença não está na falta de oferta da graça, mas na resistência da vontade humana.

2. A "Vontade Antecedente" e a "Vontade Consequente"

Trata-se de um conceito que explica passagens bíblicas que falam do desejo divino de salvação universal, como as seguintes palavras ditas pelo apóstolo Paulo: "Deus quer que todos os homens se salvem" (1 Timóteo 2:4).

  • Vontade Antecedente: Deus deseja a salvação de todos os indivíduos, considerada isoladamente [caso a caso].
  • Vontade Consequente: Deus deseja criar um mundo onde a liberdade humana seja preservada. Como consequência de permitir essa liberdade, Ele aceita um mundo onde alguns escolhem a perdição, embora esse não fosse o Seu desejo primário.

3. Vasos de Ira e Vasos de Misericórdia

As Escrituras Sagradas, em Romanos 9:22-23, fazem menção aos “vasos de ira” [indivíduos que escolhem o mal] e aos “vasos de misericórdia” [pessoas que escolhem crer em Jesus para a salvação], dizendo que Deus resolveu suportar os rebeldes, a fim de demonstrar a glória do Seu poder [do Seu amor] nos vasos de misericórdia.

  • Visão Molinista: para Molina, "suportar os vasos de ira" significa que Deus permite a existência de indivíduos que escolhem o mal porque a presença e as ações deles [mesmo as malignas] criam o contexto necessário para que os "vasos de misericórdia" alcancem a fé e a salvação.
  • Quanto a Judas: a traição de Judas [um vaso de ira suportado com paciência] foi o meio necessário para a cruz, que foi e continua sendo o instrumento de glória para os vasos de misericórdia.

4. Responsabilidade e Soberania

Aqui reside a distinção crucial do Molinismo em relação às demais correntes soteriológicas, i.e., quando é abordada a questão da “soberania de Deus” e da “responsabilidade humana”.

  • A Culpa é de Judas: como ele não foi forçado a nada e tinha o poder de escolher o contrário do que acabou acontecendo, a responsabilidade moral permanece integralmente sobre ele, ainda que Deus soubesse preliminarmente sua decisão.
  • O Controle é de Deus: Deus utiliza o mal de Judas para um bem maior, sem ser o autor do pecado. Ele é o "arquiteto" que organiza as circunstâncias e move as peças, colocando-as no devido lugar, para que elas sigam suas próprias inclinações.

Resumo da Perspectiva

No molinismo, Judas traiu Jesus porque quis, mas ele só estava lá para fazê-lo porque Deus, em Sua sabedoria infinita, sabia que essa escolha livre cooperaria para a salvação do mundo. Em outras palavras, Deus é glorificado tanto na Sua justiça [ao permitir que a rejeição livre de Judas siga seu curso] quanto na Sua misericórdia [ao usar essa mesma rejeição para salvar outros]. 

A paciência de Cristo com Judas no cenáculo, por exemplo, oferecendo-lhe o bocado de pão, é o ápice dessa doutrina, pois trata-se de uma oferta real de amor a alguém que Deus já sabe, pelo conhecimento pré-volitivo [anterior à Sua vontade], que escolherá o ódio. Importante ressaltar que, segundo relatos históricos, receber um pedaço de pão molhado do anfitrião [Jesus, nesse caso] era considerado uma questão de honra.

Pode ser que alguém queira alegar que Deus tenha sido, em última análise, o responsável por preparar o cenário para que o mal ocorresse, pelo fato de saber de antemão que Judas escolheria trair Jesus. Tal raciocínio seria lógico se Deus não fosse justíssimo e não julgasse cada indivíduo com base no caráter e na proporção entre a oportunidade recebida e a decisão tomada ["justiça distributiva-retributiva"].

Esse detalhe, de como ocorre a justiça divina, traz solução para o seguinte paradoxo da desigualdade de circunstâncias: como alguém que nasceu em uma cultura sem acesso a certas informações poderia ser medido pela mesma régua que outro que nasceu em um ambiente favorável? Respostase Deus é o padrão máximo de justiça, o julgamento não ocorrerá através de uma régua única e estática, mas sim por meio de uma análise da fidelidade à luz que cada pessoa recebeu

Judas, por exemplo, teve muitas possibilidades de arrependimento, mas escolheu o mal, agindo livremente de acordo com o seu caráter e vontade.


Por causa da "justiça distributiva-retributiva" é que Jesus proferiu as seguintes palavras: "a quem muito foi dado, muito será cobrado" (Lucas 12:48). 



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