O papel de Judas Iscariotes sob a ótica do Molinismo
Marcelo Victor R. Nascimento
Introdução
Entender o papel de Judas
Iscariotes sob a ótica do Molinismo é mergulhar em um dos equilíbrios mais
sofisticados entre a "soberania divina" e a "liberdade humana".
O Molinismo foi um sistema soteriológico
desenvolvido pelo jesuíta Luís de Molina no século XVI que possui como premissa
básica o fato de Deus conhecer de antemão o que qualquer criatura livre faria
em qualquer circunstância possível, i.e., Ele conhece as pessoas tão profundamente [o
caráter de cada uma delas] que sabe como suas vontades reagiriam a
qualquer estímulo ou situação, sem que isso anule suas liberdades [uma intuição
divina].
Isso ocorre, porque, ao ter
plantado nas criaturas a semente da liberdade libertária quando as criou
conforme a Sua imagem e semelhança, Deus obrigou-se a não exercer o controle sobre
o coração, a mente e a personalidade de nenhuma das criaturas, de sorte que a
causa última das escolhas é o próprio agente livre.
Tal premissa faz com que o
Molinismo seja diferente da corrente soteriológica Calvinista [para a qual Deus
decreta todas as coisas] e da corrente soteriológica Arminiana Clássica [para a qual Deus apenas prevê o que acontecerá].
Analisemos o papel de Judas sob a
ótica Molinista.
1. Graça Suficiente vs. Graça
Eficaz
Para o Molinismo, Deus concede graça
suficiente a todos os seres livres para se salvarem, inclusive àqueles que Ele sabe que a
rejeitarão [como Judas].
- O Ato de Suportar: a paciência que Jesus teve com
Judas não foi uma "encenação". Em virtude de conhecer as
possibilidades e o caráter de cada indivíduo, Deus sabia que, embora Judas tivesse liberdade para se
arrepender, ele não o faria.
- A Proporção de Chance: ao oferecer as mesmas
oportunidades a Judas que ofereceu aos demais apóstolos, Deus demonstrou
Sua justiça, de sorte que nem ele e nem ninguém poderá alegar que foi
privado do auxílio divino. A diferença não está na falta de oferta da
graça, mas na resistência da vontade humana.
2. A "Vontade
Antecedente" e a "Vontade Consequente"
Trata-se de um conceito que
explica passagens bíblicas que falam do desejo divino de salvação universal,
como as seguintes palavras ditas pelo apóstolo Paulo: "Deus quer que todos os homens se salvem" (1 Timóteo
2:4).
- Vontade Antecedente: Deus deseja a salvação
de todos os indivíduos, considerada isoladamente [caso a caso].
- Vontade Consequente: Deus deseja criar um
mundo onde a liberdade humana seja preservada. Como consequência de
permitir essa liberdade, Ele aceita um mundo onde alguns escolhem a
perdição, embora esse não fosse o Seu desejo primário.
3. Vasos de Ira e Vasos de
Misericórdia
As Escrituras Sagradas, em Romanos
9:22-23, fazem menção aos “vasos de ira” [indivíduos que escolhem
o mal] e aos “vasos de misericórdia” [pessoas que escolhem crer
em Jesus para a salvação], dizendo que Deus resolveu suportar os rebeldes, a fim de demonstrar a
glória do Seu poder [do Seu amor] nos vasos de misericórdia.
- Visão Molinista: para Molina, "suportar
os vasos de ira" significa que Deus permite a existência de
indivíduos que escolhem o mal porque a presença e as ações deles [mesmo as
malignas] criam o contexto necessário para que os "vasos de
misericórdia" alcancem a fé e a salvação.
- Quanto a Judas: a traição de Judas [um vaso
de ira suportado com paciência] foi o meio necessário para a cruz, que foi e continua sendo o
instrumento de glória para os vasos de misericórdia.
4. Responsabilidade e Soberania
Aqui reside a distinção crucial
do Molinismo em relação às demais correntes soteriológicas, i.e., quando é
abordada a questão da “soberania de Deus” e da “responsabilidade
humana”.
- A Culpa é de Judas: como ele não foi forçado
a nada e tinha o poder de escolher o contrário do que acabou acontecendo, a
responsabilidade moral permanece integralmente sobre ele, ainda que Deus
soubesse preliminarmente sua decisão.
- O Controle é de Deus: Deus utiliza o mal de
Judas para um bem maior, sem ser o autor do pecado. Ele é o "arquiteto"
que organiza as circunstâncias e move as peças, colocando-as no devido
lugar, para que elas sigam suas próprias inclinações.
Resumo da Perspectiva
No molinismo, Judas traiu Jesus porque quis, mas ele só estava lá para fazê-lo porque Deus, em Sua sabedoria infinita, sabia que essa escolha livre cooperaria para a salvação do mundo. Em outras palavras, Deus é glorificado tanto na Sua justiça [ao permitir que a rejeição livre de Judas siga seu curso] quanto na Sua misericórdia [ao usar essa mesma rejeição para salvar outros].
A paciência de Cristo com Judas no cenáculo, por exemplo, oferecendo-lhe o bocado de pão, é o ápice dessa doutrina, pois trata-se de uma oferta real de amor a alguém que Deus já sabe, pelo conhecimento pré-volitivo [anterior à Sua vontade], que escolherá o ódio. Importante ressaltar que, segundo relatos históricos, receber um pedaço de pão molhado do anfitrião [Jesus, nesse caso] era considerado uma questão de honra.
Pode ser que alguém queira alegar que Deus tenha sido, em última análise, o responsável por preparar o cenário para que o mal ocorresse, pelo fato de saber de antemão que Judas escolheria trair Jesus. Tal raciocínio seria lógico se Deus não fosse justíssimo e não julgasse cada indivíduo com base no caráter e na proporção entre a oportunidade recebida e a decisão tomada ["justiça distributiva-retributiva"].
Esse detalhe, de como ocorre a justiça divina, traz solução para o seguinte paradoxo da desigualdade de circunstâncias: como alguém que nasceu em uma cultura sem acesso a certas informações poderia ser medido pela mesma régua que outro que nasceu em um ambiente favorável? Resposta: se Deus é o padrão máximo de justiça, o julgamento não ocorrerá através de uma régua única e estática, mas sim por meio de uma análise da fidelidade à luz que cada pessoa recebeu.
Judas, por exemplo, teve muitas possibilidades de arrependimento, mas escolheu o mal, agindo livremente de acordo com o seu caráter e vontade.
Por causa da "justiça distributiva-retributiva" é que Jesus proferiu as seguintes palavras: "a quem muito foi dado, muito será cobrado" (Lucas 12:48).

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