O batismo de Jesus Cristo
Marcelo Victor R Nascimento
O batismo de Jesus por João
Batista no rio Jordão é um dos momentos mais significativos dos Evangelhos. Sua importância reside em vários pontos teológicos e simbólicos.
Considerando a arqueologia,
a história judaica e a exegese bíblica, tal batismo parece fazer uma conexão
entre o Antigo e o Novo Testamento [tipologia bíblica], sustentando uma visão
continuísta do rito, mas substitutiva quanto ao seu significado
espiritual.
Uma vez que o batismo de João era
"para arrependimento" [metanoia], o batismo de
Jesus levanta questões mais profundas que serão tratadas adiante de forma
bastante sucinta.
1. Raízes Judaicas e Arqueologia (Pontos Fortes)
- O Tevilah e os Mikvaot: o
argumento de que o batismo cristão não surgiu do nada, mas tem raízes no
ritual judaico de purificação [Tevilah], é historicamente e
arqueologicamente inquestionável. As descobertas de banhos rituais [mikvaot]
ao redor do Monte do Templo em Jerusalém confirmam que a imersão
completa era uma prática diária e essencial no judaísmo do primeiro
século.
- Transição de Significado: o Novo Testamento
"ressignificou" essa prática. O que antes era uma
purificação cerimonial repetitiva no judaísmo, tornou-se, com João
Batista, um ato único de arrependimento; posteriormente, no
cristianismo, passou a ser um símbolo público de fé, morte para o mundo e
ressurreição com Jesus Cristo, voltado para a missão evangelística da igreja [anunciar ao mundo as boas novas de salvação].
- O Simbolismo do Êxodo: a conexão feita nas
Escrituras Sagradas entre a passagem pelo Mar Vermelho e o batismo é
brilhante [1 Coríntios 10:1-2]. Transforma o ato de "lavar o
corpo" em um ato de "mudar de nacionalidade
espiritual", i.e., indica uma mudança da condição de escravo no Egito
para legítimo cidadão da cidade do Deus viso, a Jerusalém celestial [Filipenses 3:20; Hebreus 12:22].
2. A Forma do Batismo: Imersão
(Evidências Coerentes)
- A Forma: a defesa da imersão [mergulho
completo] tem como base (1) o significado original das palavras, pois tanto
o hebraico tevilah quanto o grego baptizō carregam o sentido
principal de mergulhar/submergir, e (2) o contexto geográfico, que impõe uma lógica
dedutiva à forma de realização do bastismo, pois, se o batismo fosse por aspersão [apenas
gotas], João não precisaria buscar lugar com "muitas águas"
em Enom [João 3:23; Mateus 3:16].
Nota de
contexto: importante ressaltar, a título de análise abrangente, que
tradições que praticam a aspersão/efusão [como católicos, luteranos e
presbiterianos] geralmente não negam a raiz da imersão, mas argumentam que o
batismo cristão também substitui a circuncisão [Colossenses 2:11-12] e que
aspersões rituais com sangue e água, no Antigo Testamento, também prefiguravam a
purificação espiritual do Novo Testamento [Êxodo 24:8; Ezequiel 36:25].
- O Caso de Naamã: entre outros exemplos
tipológicos citados nas Escrituras Sagradas, o caso de Naamã, um general siro,
serve como um excelente suporte [2 Reis 5]. O mergulho sete vezes no
Jordão não era apenas para cura física, mas um ato de obediência que
exigia o corpo inteiro submerso, prefigurando a entrega total exigida no
batismo cristão.
3. O Batismo de Jesus e o
Sacerdócio
Há um forte apelo para considerar o batismo de Jesus como a demonstração de solidariedade com os seres humanos pecadores, como se Ele estivesse colocando-Se no lugar deles [identificando-se com eles] em um gesto de humildade e assumindo, publicamente, o fardo daqueles que Ele veio salvar. Contudo, há contornos de legalidade nesse ato e de cumprimento das profecias acerca do anjo que prepararia o caminho do Messias [Malaquias 3:1].
- Para "Cumprir toda a Justiça": quando
João hesitou em batizá-lo, Jesus respondeu: "Deixa por agora,
porque assim nos convém cumprir toda a justiça" (Mateus
3:15). Portanto, Jesus batizou-se para cumprir a Lei Mosaica referente à lavagem dos
sacerdotes, exatamente aos 30 anos, como havia sido determinado [Êxodo
29:4; Números 4:3] e, assim, validou o ministério de João Batista como um profeta
enviado por Deus.
Nota de contexto: é importante lembrar que Jesus não
era da tribo de Levi, mas de Judá. Portanto, legalmente, Ele não poderia
ser um sacerdote da ordem de Arão [que exigia essas regras literais]. O autor
de Hebreus deixa claro que o sacerdócio de Jesus é de uma ordem superior [da ordem de Melquisedeque].
Logo, o cumprimento dessa lei no batismo é tipológico e simbólico,
e não estritamente legalista. Jesus cumpre a "sombra"
da Lei para inaugurar uma nova realidade.
- Consagração Sacerdotal: o batismo de Jesus
no Jordão funciona como sua consagração sacerdotal pública. No Antigo
Testamento, o sacerdote era lavado e ungido; no Jordão, Jesus é lavado por
João e ungido pelo Espírito Santo. A partir daquele momento, o batismo
deixou de ser apenas um sinal de arrependimento [o batismo de João] para tornar-se
um sacramento de regeneração e renascimento espiritual para os seguidores
do Messias.
Nota de contexto: o ato de mergulhar na água e emergir dela
é visto como uma prefiguração do que ocorreria no final da trajetória terrena
de Jesus, i.e., a imersão, como símbolo da Sua morte e sepultamento, e a emersão,
como símbolo da Sua ressurreição triunfante e gloriosa para uma nova vida.
Síntese da Análise
|
Aspecto |
No Antigo
Testamento (Lei/Tradição) |
No
Batismo de Jesus |
No
Batismo Cristão |
|
Objetivo |
Pureza
ritual/cerimonial. |
Cumprir a
justiça/Consagração. |
Testemunho
de fé/União com Cristo. |
|
Frequência |
Recorrente
(diário/necessário). |
Único. |
Único. |
|
Forma |
Imersão (Tevilah). |
Imersão no
Rio Jordão. |
Imersão
(Morte e Ressurreição). |
Nota de contexto: Marcos 16:16 faz parte do que a teologia
classifica como “grande comissão”, em virtude da ordem que Jesus deu aos apóstolos:
"Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os...”.
O batismo com o Espírito Santo, por sua vez, é uma prerrogativa exclusiva
de Jesus, como bem testificou João Batista [Mateus 3:11], fazendo com que a
ordem dada aos apóstolos esteja relacionada ao batismo nas águas, o que, de fato, eles
cumpriram, inclusive no caso do centurião Cornélio e sua casa (Atos 10:47-48), os
quais, mesmo depois dele terem sido batizado com o Espírito Santo, foram
batizados nas águas: "Pode alguém porventura recusar a água, para
que não sejam batizados estes que receberam, como nós, o Espírito Santo? E
mandou que fossem batizados em nome do Senhor". Tal acontecimento revela que, no Novo Testamento, existem o batismo com o Espírito Santo e o batismo nas águas como eventos distintos, sem que um anule a necessidade do outro.
Conclusão
Os argumentos apresentados formam
uma defesa apologética completa, coesa e irretocável, que transita com fluidez
entre a teologia do Antigo Testamento, a linguística grega e hebraica, a
arqueologia e o Novo Testamento.
Trata-se de uma prova muito bem
fundamentada de que o batismo por imersão não é apenas uma tradição
denominacional, mas o cumprimento literal e tipológico das Escrituras.
Ao ser batizado aos 30 anos,
Jesus valida o ministério de João Batista, obedece aos protocolos sacerdotais da Lei
Mosaica e estabelece um padrão para seus seguidores. Foi o ato decisivo que conectou o sacerdócio levítico [que estava se extinguindo] ao
sacerdócio eterno de Cristo, segundo a ordem de Melquisedeque [Gênesis 14, Salmo 110; Hebreus 7].
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Um
só batismo, em nome de Jesus Cristo. Joinville: Clube de Autores.

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