O Molinismo e o Paradoxo de Epicuro

 

Imagem gerada por Goolge AI, 2026.

Marcelo Victor R. Nascimento


O Paradoxo de Epicuro, também conhecido como o “Problema do Mal”, é um dos desafios mais antigos à ideia de uma divindade onipotente, onisciente e benevolente. Ele apresenta o seguinte questionamento: “se Deus quer e pode acabar com o mal, por que o mal existe?

Para "resolver" esse paradoxo, filósofos e teólogos, ao longo dos séculos, desenvolveram diversas teodiceias [tentativas de justificar Deus diante dos males presentes no mundo].

Será que o Molinismo tem poder para resolver esse paradoxo?


1. Molinismo e o Paradoxo de Epicuro:

·       O Molinismo, sistema teológico desenvolvido pelo jesuíta Luis de Molina no século XVI, é frequentemente citado como uma das tentativas mais sofisticadas de resolver o paradoxo de Epicuro, pois ele oferece argumentos sólidos para harmonizar três conceitos difíceis: a onisciência de Deus, a liberdade humana e a existência do mal.

·       A peça-chave para o Molinismo é o conceito de “conhecimento médio” [Scientia Media], i.e., Deus não conhece apenas o que vai acontecer [presciência] e o que pode acontecer [conhecimento natural], mas também o que cada criatura livre faria em qualquer circunstância possível [conhecimento dos mundos possíveis].

·       A Escolha do Mundo: antes da criação, Deus viu todos os mundos possíveis. Ele sabia que, se colocasse a "Pessoa A" na "Situação X", ela livremente escolheria o mal; mas se a colocasse na "Situação Y", ela escolheria o bem.


2. A distinção entre "Mundo Possível" e "Mundo Viável"

Este é o argumento central. Para o molinismo, existem infinitos mundos “possíveis” [tudo o que Deus poderia criar], mas nem todos são “viáveis”.

  • O Argumento: imagine um mundo onde todos sempre escolhem o bem livremente. Esse mundo é possível. No entanto, se as pessoas, ao serem criadas com liberdade real, decidirem livremente praticar o mal, Deus não pode forçá-las a fazer o bem sem destruir a liberdade delas.
  • A Resolução: se em todos os mundos onde há liberdade real as criaturas acabam escolhendo o mal em algum momento, então um mundo "perfeito e livre" torna-se “inviável”. Deus, então, escolhe o melhor dos mundos viáveis — aquele onde o mal ocorre, mas é superado por um bem maior ou pela salvação do maior número possível de pessoas.

 

3. O Mal como "Efeito Colateral" da Liberdade

O molinismo resolve o paradoxo de Epicuro mudando a definição de "poder" de Deus:

  • Onipotência não significa poder fazer o logicamente impossível, como, por exemplo, criar um triângulo de quatro lados.
  • Se a liberdade humana é um valor supremo para Deus, e se criaturas livres podem escolher o mal, então nem mesmo Deus pode garantir um mundo livre de mal sem violar a própria lógica da liberdade que Ele estabeleceu. Portanto, ao criar o mundo, Ele “suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia” (Romanos 9:22,23). 


4. A Providência e o "Xeque-Mate" Divino

Diferente do Deísmo [onde Deus cria e abandona], no molinismo, Deus é um mestre estrategista que trabalha com as possibilidades.

  • Ele permite que o mal aconteça porque sabe exatamente como esse mal será usado para gerar um resultado futuro que é amorosíssimo e justíssimo.
  • O paradoxo de Epicuro pergunta: "Por que Ele não impede o mal?". O Molinismo responde: "Porque Ele sabe que impedir este mal específico resultaria em um mundo pior ou com menos pessoas salvas a longo prazo". 


5. Críticas à Solução Molinista:

Apesar de elegante, o Molinismo enfrenta resistência.

  • A Objeção do Aterramento: alguns críticos perguntam: “o que torna um mundo possível verdadeiro?”; e “Como Deus pode saber o que cada pessoa decidiria antes dela existir ou das circunstâncias existirem?

Considerações: a verdade é que pouco se conhece do real significado do poder da onisciência divina, como ocorre com a onipresença, por exemplo, visto que é difícil a mente humana imaginar como um Deus transcendente pode ser imanente ao mesmo tempo, i.e., como Ele pode transcender as dimensões e ao mesmo tempo revelar-se assentado sobre um trono, ou melhor, fazer-se homem no ventre de uma mulher?

  • A Responsabilidade Divina: se Deus sabia exatamente que o mal ocorreria ao escolher um mundo específico em vez de outro, Ele não seria, em última instância, o responsável por preparar o cenário para o mal?

Considerações: tal pensamento seria lógico se Deus não fosse justíssimo e não julgasse cada indivíduo com base na proporção entre a oportunidade recebida e a decisão tomada [justiça retributiva e distributiva]. Isso traz solução para o problema da desigualdade de circunstâncias, i.e., como alguém que nasceu em uma cultura sem acesso a certas informações poderia ser medido pela mesma régua que outro que nasceu em um ambiente favorável)? Por essa razão que Jesus disse que "a quem muito foi dado, muito será exigido". Portanto, se Deus é o padrão máximo de justiça, o julgamento não poderia ser uma régua única e estática, mas sim uma análise da fidelidade à luz que cada pessoa recebeu.

 

6. O Molinismo e a Providência Ótima

Através do seu "conhecimento médio", Deus sabe exatamente como cada pessoa responderia em qualquer circunstância. Assim, Ele orquestrou o mundo de forma que cada indivíduo seja colocado em um cenário onde sua decisão de salvação seja verdadeiramente sua, respeitando sua liberdade, dentro das limitações de sua realidade.

Assim sendo, fica resolvida a questão a questão do “determinismo circunstancial” [nascer no lugar “errado” ou na época “errada”], visto que a justiça divina é individualizada e a "chance" de salvação não é medida pela quantidade de informação externa, mas pela sinceridade da resposta interna diante das possibilidades apresentadas.


Conclusão:

Dentro do que foi discutido, o Molinismo pode ser visto como uma ponte real entre o determinismo e o libertarianismo, transformando o paradoxo de Epicuro em uma questão de "equidade profunda", onde o mal e as limitações do mundo são apenas o pano de fundo para decisões morais que Deus pesa com precisão cirúrgica.

Nesse processo, cresce de importância o papel da consciência individual, constituindo-se na ferramenta pela qual Deus apresenta a "proporção de chance" para todos, incluindo aqueles que não tiveram acesso a textos ou doutrinas específicas, conforme Romanos 2:12-16. 

 


Referência Bibliográfica:

NASCIMENTO, M.V.R. (2020). O significado da vida para as correntes soteriológicas calvinista, arminiana e molinista e sua relação com o plano divino. Revista Sociedade Científica, v.3, nº 7. DOI: 10.5281/zenodo.4127338.

 


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