O Molinismo e o Paradoxo de Epicuro
Marcelo Victor R. Nascimento
O Paradoxo de Epicuro, também
conhecido como o “Problema do Mal”, é um dos desafios mais
antigos à ideia de uma divindade onipotente, onisciente e benevolente. Ele apresenta
o seguinte questionamento: “se Deus quer e pode acabar com o mal, por que
o mal existe?”
Para "resolver"
esse paradoxo, filósofos e teólogos, ao longo dos séculos, desenvolveram diversas
teodiceias [tentativas de justificar Deus diante dos males presentes no
mundo].
Será que o Molinismo tem poder para resolver esse
paradoxo?
1. Molinismo e o Paradoxo de Epicuro:
- O Molinismo, sistema teológico desenvolvido pelo jesuíta Luis de Molina no século XVI, é frequentemente citado como uma das tentativas mais sofisticadas de resolver o paradoxo de Epicuro, pois ele oferece argumentos sólidos para harmonizar três conceitos difíceis: a onisciência de Deus, a liberdade humana e a existência do mal.
- A peça-chave para o Molinismo é o conceito de “conhecimento médio” [Scientia Media], i.e., Deus não conhece apenas o que vai acontecer [presciência] e o que pode acontecer [conhecimento natural], mas também o que cada criatura livre faria em qualquer circunstância possível [conhecimento dos mundos possíveis].
- A Escolha do Mundo: antes da criação, Deus viu todos os mundos possíveis. Ele sabia que, se colocasse a "Pessoa A" na "Situação X", ela livremente escolheria o mal; mas se a colocasse na "Situação Y", ela escolheria o bem.
2. A distinção entre "Mundo Possível" e "Mundo Viável"
Este é o argumento central. Para
o Molinismo, existem infinitos mundos “possíveis” [tudo o que
Deus poderia criar], mas nem todos são “viáveis”.
- O Argumento: imagine um mundo onde todos
sempre escolhem o bem livremente. Esse mundo é possível. No entanto, se as
pessoas, ao serem criadas com liberdade real, decidirem livremente
praticar o mal, Deus não pode forçá-las a fazer o bem sem destruir a
liberdade delas.
- A Resolução: se em todos os mundos onde há liberdade real as criaturas acabam escolhendo o mal em algum momento, então um mundo "perfeito e livre" torna-se “inviável”. Deus, então, escolhe o melhor dos mundos viáveis, i.e., aquele onde o mal ocorre, mas é superado por um bem maior ou pela salvação do maior número possível de pessoas.
3. O Mal como "Efeito Colateral" da Liberdade
O Molinismo resolve o paradoxo de
Epicuro mudando a definição de "poder" de Deus:
- Onipotência não significa poder fazer o logicamente
impossível, como, por exemplo, criar um triângulo de quatro lados.
- Se a liberdade humana é um valor supremo para Deus e se criaturas livres podem escolher o mal, então nem mesmo Deus pode
garantir um mundo livre de mal sem violar a própria lógica da liberdade
que Ele próprio estabeleceu. Portanto, ao criar o mundo, Ele obrigou-se a suportar "com
muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que
também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de
misericórdia” (Romanos 9:22,23).
4. A Providência e o
"Xeque-Mate" Divino
Diferente do Deísmo [onde Deus
cria e abandona], no Molinismo, Deus é um mestre estrategista que trabalha com
as possibilidades.
- Ele permite que o mal aconteça porque sabe
exatamente como esse mal será usado para gerar um resultado futuro que é pelno de amor e de justiça.
- O paradoxo de Epicuro pergunta: "Por que Ele não impede determinado o mal?". O Molinismo responde: "Porque Ele sabe que impedir esse mal específico resultaria em um mundo pior ou com menos pessoas salvas a longo prazo".
5. Críticas à Solução
Molinista:
Apesar de elegante, o Molinismo
enfrenta resistência.
- A Objeção do Aterramento: alguns
críticos perguntam: “o que torna um mundo possível verdadeiro?” Outros questionam: “Como
Deus pode saber o que cada pessoa decidiria antes dela existir ou das
circunstâncias existirem?”
Considerações: a resposta a essas perguntas gira em torno da onisciência divina. Sendo onisciente, Deus possui um conhecimento exaustivo de todas as essências individuais [o caráter de cada ser], i.e., Ele conhece as pessoas tão perfeitamente que sabe como suas vontades reagiriam a qualquer estímulo ou situação, sem que isso anule suas liberdades [intuição divina] [Gênesis 18:19; Salmo 139:4,16,23; Jeremias 1:5]. Ao ter plantado nas criaturas a semente da liberdade libertária quando as criou conforme a Sua imagem e semelhança [Gênesis 1:27], Deus obrigou-se a não exercer o controle sobre o coração, a mente e a personalidade de nenhuma das criaturas, de sorte que a causa última das escolhas é o próprio agente livre. O ponto mais complexo é o fato das possibilidades serem verdadeiras antes de Deus criar o mundo, mas elas são verdadeiras não porque Ele as fez serem verdadeiras, mas porque as conhece perfeitamente. Com esses dados, Deus pôde planejar o universo, escolhendo criar o mundo que atendesse à Sua vontade, baseado no que o homem, de fato, decidiria por conta própria.
- A Responsabilidade Divina: se Deus
sabia exatamente que o mal ocorreria ao escolher um mundo específico em
vez de outro, Ele não seria, em última instância, o responsável por
preparar o cenário para o mal?
Considerações:
tal pensamento seria lógico se Deus não fosse justíssimo e não julgasse cada
indivíduo com base na proporção entre a oportunidade recebida
e a decisão tomada [justiça distributiva e retributiva]. Isso
traz solução para o seguinte paradoxo da desigualdade de circunstâncias: como
alguém que nasceu em uma cultura sem acesso a certas informações poderia ser
medido pela mesma régua que outro que nasceu em um ambiente favorável? Foi por
essa razão que Jesus disse que "a quem muito foi dado, muito será
exigido". Portanto, se Deus é o padrão máximo de justiça, o
julgamento não pode ser uma régua única e estática, mas sim uma análise da
fidelidade à luz que cada pessoa recebeu [Lucas 12:47-48].
6. O Molinismo e a Providência
Ótima
Através do seu "conhecimento médio", Deus sabe exatamente como cada pessoa responderia em qualquer
circunstância. Assim, Ele orquestrou o mundo de forma que cada indivíduo seja
colocado em um cenário onde sua decisão de salvação seja verdadeiramente sua,
respeitando sua liberdade, dentro das limitações de sua realidade.
Assim sendo, fica resolvida a
questão do “determinismo circunstancial” [nascer no
lugar “errado” ou na época “errada”], visto que a justiça
divina é individualizada e a "chance" de salvação não é medida
pela quantidade de informação externa, mas pela sinceridade da resposta
interna diante das possibilidades apresentadas.
Conclusão:
Dentro do que foi discutido, o
Molinismo pode ser visto como uma ponte real entre o determinismo e o
libertarianismo, transformando o "Paradoxo de Epicuro" em uma questão de "equidade
profunda", onde o mal e as limitações do mundo são apenas o pano de fundo
para decisões morais que Deus pesa com precisão cirúrgica.
Nesse processo, cresce de importância o papel da consciência de cada indivíduo, constituindo-se na ferramenta pela qual Deus apresenta a "proporção de chance" para todas as pessoas, incluindo aqueles que não tiveram acesso a textos ou doutrinas religiosas específicas, conforme está escrito em Romanos 2:12-16.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). O significado da vida para as correntes soteriológicas calvinista, arminiana e molinista e sua relação com o plano divino. Revista Sociedade Científica, v.3, nº 7. DOI: 10.5281/zenodo.4127338.

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