Explicação clara sobre o Molismo, com base em seu texto prova
Marcelo Victor R. Nascimento
1 - Introdução:
Primeiramente, é importante compreendermos
as bases da crença Molinista: o Molinismo é um sistema teológico que busca
conciliar a soberania absoluta de Deus com o livre-arbítrio
libertário do ser humano.
Nota
explicativa: o livre-arbítrio libertário é a concepção filosófica de que
os seres humanos possuem a capacidade genuína de fazer escolhas morais livres,
não determinadas por causas anteriores, leis da natureza ou determinismo divino.
Para tanto, o Molinismo baseia-se
em três pilares principais:
1.1 - Conhecimento Médio [Scientia
Media]: é o conceito central da crença Molinista. Defende que, antes de
criar o mundo, Deus sabe exatamente o que qualquer criatura livre faria em
qualquer circunstância possível [imaginável], em cada mundo possível, i.e.,
Deus conhece perfeitamente a mente e o coração de cada pessoa que viria ao
mundo em todos os mundos possíveis.
1.2 - Contrafatuais da
Liberdade: Deus conhece as verdades sobre todas as situações que poderiam
acontecer [todas as situações possíveis] na vida de cada pessoa, em cada mundo imaginável, mas não acontecem necessariamente.
1.3 - Providência Divina: Deus
utiliza esse conhecimento para escolher e criar o mundo exato onde Seus
propósitos são alcançados através das escolhas genuinamente livres das pessoas,
sem precisar coagi-las.
Nota do
Contexto: segundo Malaquias 2:15, o intento de Deus quando criou o Universo era
formar uma “semente de piedosos”, i.e., uma família de pessoas
que O amassem de todo o coração e ao próximo como a si mesmos. Com a queda de
Adão e Eva, o intento de Deus passou a ser salvar o maior número de pessoas
possível [1 Timóteo 2:4].
Em suma: Deus é soberano
porque planeja o cenário, mas o homem é livre porque a sua escolha naquele
cenário não é determinada por Deus.
2 – A Passagem Clássica do
Molinismo:
A passagem de 1 Samuel 23:10-12 é
considerada o "texto de prova" clássico do Molinismo
porque ele exemplifica perfeitamente o conceito de “Conhecimento Médio” [Scientia Media]:
“E disse Davi: Ó Senhor, Deus de Israel, teu servo
tem ouvido que Saul procura vir a Queila, para destruir a cidade por causa de
mim. Entregar-me-ão os cidadãos de Queila na sua mão? Descerá Saul, como o teu
servo tem ouvido? Ah! Senhor Deus de Israel! Faze-o saber ao teu servo. E disse
o Senhor: Descerá. Disse mais Davi: Entregar-me-ão os cidadãos de Queila, a mim
e aos meus homens, nas mãos de Saul? E disse o Senhor: Entregarão” (1 Samuel 23:10-12).
3 – Análise:
3.1 - Conhecimento de
"Contrafatuais"
Deus afirmou com absoluta certeza
o que Saul e os cidadãos de Queila fariam [entregariam Davi] em uma
circunstância específica [quando Saul viesse a Queila], mesmo que essa
circunstância nunca viesse a ocorrer [como não ocorreu de fato]. Ou seja, Deus
não previu o futuro [pois Davi fugiu e o cerco não aconteceu], mas sim uma
possibilidade condicional baseada na liberdade humana [Davi tinha a opção de
ficar ou sair].
3.2 - Compatibilidade entre
Soberania e Liberdade
O texto mostra que Deus conhece
as decisões livres dos agentes [enxergou o coração de Saul e dos homens de
Queila] sem que essas decisões tivessem sido determinadas soberanamente por Ele
[por um decreto causal da Sua parte]. Está provado, portanto, que Deus sabe
como a vontade humana reagiria sob diferentes condições.
3.3 - Providência através da
Informação
Ao revelar esse "conhecimento
médio" a Davi, Deus permite que ele tome uma decisão livre para
alterar o curso dos eventos. Isso ilustra o cerne do Molinismo, mostrando que Deus
possui e utiliza Seu conhecimento [do que cada criatura faria livremente em cada mundo possível] para
governar o mundo e cumprir Seus propósitos, sem violar o arbítrio humano.
Conclusão:
O texto bíblico analisado aprova o Molinismo como uma soteriologia reconhecidamente bíblica, com fundamentos sólidos, ao demonstrar que Deus possui conhecimento sobre verdades condicionais hipotéticas [o que aconteceria se...], algo que permite uma conciliação entre a onisciência divina e a contingência das escolhas humanas [decisões que podem ou não ser tomadas, de acordo com as circunstâncias].



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