Emanuel vs. Jesus: uma análise bíblica
Marcelo Victor R. Nascimento
Não é incomum algumas pessoas colocarem em dúvida a
veracidade das Escrituras Sagradas, dizendo que o nome do Messias deveria ser “Emanuel”
e não “Jesus”, conforme havia sido profetizado por Isaías nos
seguintes termos: "Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: Eis
que a virgem conceberá e dará luz a filho e chamará seu nome Emanuel"
(Isaías 7:14).
Essas palavras de Isaías tocam em um ponto
fundamental da hermenêutica bíblica: a distinção entre antropônimo [nome
próprio] e teóforo/título [nome que descreve atributos].
1. O Significado de "Emanuel" vs.
"Jesus"
A confusão normalmente surge em virtude de uma leitura
literalista do termo "nome". Na cultura hebraica
bíblica, "chamar o nome" de alguém frequentemente
significa descrever sua natureza ou sua missão, e
não apenas designar como a pessoa será registrada civilmente.
- Emanuel: significa literalmente "Deus conosco".
Mais do que um nome de batismo, é uma proclamação do que a presença
daquela criança representa para a humanidade.
- Jesus (Iesous / Yeshua): Significa "O
Senhor é Salvação". É o nome próprio dado para identificação
pessoal.
2. Títulos Messiânicos como Atributos
Se fôssemos exigir que o Messias tivesse "Emanuel"
como único nome civil, teríamos um problema com as outras profecias de Isaías e
Jeremias que trazem as seguintes informações:
|
Referência |
Designação Profética |
Significado/Atributo |
|
Isaías 9:6 |
Maravilhoso Conselheiro |
Sabedoria divina e guia perfeito. |
|
Isaías 9:6 |
Deus Forte |
Onipotência e divindade. |
|
Isaías 9:6 |
Príncipe da Paz |
Aquele que restaura o Shalom. |
|
Jeremias 23:6 |
O Senhor é nossa Justiça |
Justificação espiritual. |
Nota Contextual: se
interpretássemos todos esses como "nomes civis", o
Messias teria que possuir uma dezena de nomes diferentes. A análise correta,
portanto, é que Jesus é quem Ele é [identidade],
enquanto Emanuel e os demais títulos são o que Ele faz ou
representa [função].
3. A Complementaridade
Não há discordância entre os termos utilizados nas
Escrituras Sagradas, porque o Novo Testamento faz a ponte direta entre esses
conceitos. Em Mateus 1:21-23, o autor afirma explicitamente que o nascimento de
Jesus [nome próprio] aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo
profeta: que Ele seria chamado Emanuel [título/natureza]. Assim sendo, está
solucionada a suposta contradição ao aplicar a lógica de que nomes proféticos
na Bíblia funcionam como epítetos. Jesus é o "Emanuel"
porque, através dele, "Deus está conosco".
4. Observação Linguística
Outro detalhe interessante é que, no hebraico, o verbo
"chamar" [qara] seguido de um nome pode ser
traduzido como "será reconhecido como". Portanto,
Isaías 7:14 poderia ser lido como: "Ele será reconhecido por
todos como a presença de Deus entre nós".
Conclusão:
Os argumentos apresentados refutam de forma magistral
a tentativa de colocar em dúvida a veracidade das Escrituras Sagradas, usando a
suposta contradição entre "Emanuel" e "Jesus".
Ficou claro que "Jesus" é o
nome histórico e humano que o identifica na genealogia de Davi e "Emanuel"
é a definição teológica de sua natureza, i.e., “Jesus” é o nome
pelo qual Ele foi chamado pelos homens, enquanto “Emanuel” é como
Ele é reconhecido por Deus e pela história.
Ao listar os diversos títulos mencionados na Bíblia
Sagrada para Jesus [Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade], os profetas
não estavam sugerindo uma lista de nomes próprios, mas sim compondo um mosaico
da personalidade do Messias.
Negar Jesus como o cumprimento de Emanuel exigiria,
por lógica, que Ele também se chamasse civilmente "Justiça Nossa", o
que anularia a natureza poética e profética do texto de Jeremias 23:6, por exemplo.
O escritor bíblico do Novo Testamento, ao citar
Isaías, não vê uma falha, mas uma confirmação. Para os evangelistas, a vinda de
Jesus foi a materialização literal da promessa de que Deus não estava mais
distante, mas "conosco".
Faz sentido para você essa distinção entre o nome de registro e a função profética, ou você acredita que a interpretação literal do nome deveria prevalecer?
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). Um só batismo, em nome de Jesus Cristo. Joinville: Clube de Autores.

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