As correntes soteriológicas e o significado da vida.
Marcelo Victor R. Nascimento
1. Objetivo da matéria: verificar qual corrente soteriológica melhor reflete o caráter de Deus e o propósito bíblico da criação, lembrando que Deus possui um caráter perfeito, sem mácula, e o Seu desejo com a criação está descrito nesta passagem: “E não fez ele somente um, sobejando-lhe espírito? E por que somente um? Ele buscava uma semente de piedosos” (Malaquias 2:15).
Assim sendo, segundo o profeta Malaquias, a partir do primeiro casal, feito à imagem e semelhança de Yahweh, nasceriam "sementes pidosas" [filhos], que, por serem perfeitas em amor, como os pais, escolheriam amá-Lo de todo o coração e amar-se-iam de igual forma (Gênesis 1:26-27; Malaquias 2:15).
2. Definições Iniciais:
- Calvinismo: corrente soteriológica monergista, isto é, que tem, em Yahweh, a figura central da salvação, o qual é responsável por toda a obra salvífica, tendo decretado, desde a eternidade, quem iria salvar-se e quem iria perder-se (dupla predestinação) por razões que Lhe pertencem, segundo os soberanos conselhos da Sua vontade, de tal forma que o homem apenas obedece aos decretos divinos, possuindo tão somente livre agência (capacidade de agir livremente), mas não, livre-arbítrio libertário (autonomia).
- Arminianismo: corrente soteriológica sinergista, isto é, que confere ao homem um certo grau de participação no processo salvífico (sinergia, cooperação), pois possui livre-arbítrio libertário (autonomia para manifestar a sua vontade), ainda que parcialmente depravado pelo pecado, sendo, portanto, capaz de responder, livremente, ao convite feito pelo Evangelho de Jesus Cristo, escolhendo salvar-se ou perder-se.
- Molinismo: corrente soteriológica que procura harmonizar os conceitos calvinista e arminiano, assegurando que, por conhecer exaustivamente as decisões que cada agente livre tomaria em todas as circunstâncias possíveis, Yahweh escolheu criar, desde a eternidade, dentre os mundos possíveis, aquele que melhor cumpriria Seu plano (o mundo atual), sem que a vontade humana fosse violada.
3. Análise:
3.1 - Impasses Lógicos ou Morais:
- O Problema Calvinista: foca tanto na soberania que corre o risco de fazer Deus parecer um ditador insensível às vidas humanas (criando seres para a perdição apenas para demonstrar poder), sendo, portanto, em última análise, o autor do mal, tendo decretado a queda de Adão soberanamente.
- O Problema Arminiano: foca tanto na liberdade que corre o risco de fazer Deus parecer um espectador passivo, para quem o número de pessoas salvas é um mero detalhe secundário.
- A Solução Molinista: une os dois conceitos, preservando a soberania absoluta de Yahweh (Ele escolheu o mundo atual entre todos os mundos possíveis), sem violar o livre-arbítrio libertário humano.
3.2 - O “Paradoxo Paul Washer”:
Os argumentos do missionário, pastor e escritor batista norte-americano sobre a questão do caráter de Deus são importantes e expõem um paradoxo.
- A perfeição absoluta de Deus reflete-se integralmente em todas as Suas obras.
- Apesar de Sua transcendência e infinitude, Deus busca um relacionamento pessoal e paternal com Suas criaturas.
- A vontade divina é perfeita, imutável e totalmente confiável, pois deriva de Seu caráter santo.
- A retidão de Deus é intrínseca à Sua natureza, tornando impossível que Ele aja contra Sua própria perfeição moral.
- O amor não é apenas um ato de Deus, mas Sua própria essência e a origem de todo o bem.
- Deus é benevolente e misericordioso, buscando o bem de todos independentemente de méritos, sem rancor ou favoritismo.
- Deus é autossuficiente e pleno, tendo criado o universo não por necessidade, mas pelo transbordar de Sua própria existência.
Paradoxo:
como um Deus que ama a todos e deseja a salvação de todos decretaria, desde a
eternidade, a condenação de milhões?
Solução Molinista: apenas o Molinismo reflete um Deus que, usando Sua onisciência, orquestra a história, escolhendo um dos mundos possíveis em que ocorre a salvação do máximo de pessoas, respeitando a liberdade necessária para o amor genuíno.
3.3 - A Analogia do General
Eisenhower:
Mesmo sabendo que haveria baixas, o General norte-americano Eisenhower, por ocasião da invasão da Normandia, na 2ª Guerra Mundial, ordenou a invasão, priorizando o objetivo estratégico: a vitória final sobre a tirania nazista.
- A solução molinista: Deus não “deseja” a perdição de ninguém, mas ao atualizar um mundo onde o livre-arbítrio (e consequentemente o amor verdadeiro) é possível, as baixas (perdição) são uma tragédia inerente à liberdade, não um decreto sádico de Deus.
3.4 - O Significado Original
da Vida
A corrente soteriológica adequada
com a Bíblia Sagrada deve, necessariamente, ter respostas convincentes do "porquê"
da criação.
- A Premissa: Deus queria uma família, uma
"semente de piedosos".
- O Requisito: para que essa família fosse
piedosa e amasse a Deus de verdade, o amor não poderia ser robótico;
precisava ser uma escolha livre.
- A Conclusão: se a liberdade é essencial para
o amor, o risco da rebelião também é. Portanto, Deus criou o cenário
perfeito para maximizar a colheita dessa "semente de piedosos"
sem forçar ninguém, ideia que se coaduna com o Molinismo.
4. Quadro Comparativo:
Quadro Comparativo das Correntes
|
Corrente |
Visão da Salvação |
O "Significado da
Vida" |
O Impasse Teológico |
|
Calvinismo |
Monergismo: Deus
decreta quem se salva e quem se perde (Dupla Predestinação). |
Ser instrumento para exibir os
atributos de Deus (Ira e Misericórdia). |
Deus parece criar seres para a
destruição, o que conflita com Sua bondade e o valor da vida. |
|
Arminianismo |
Sinergismo: O homem
coopera livremente; a salvação é condicional à fé. |
Tornar-se "filho de
Deus" por escolha, alcançando uma natureza divina (Theosis). |
Deus parece um
"espectador". O sistema não garante que o plano original de uma
família numerosa se cumpra. |
|
Molinismo |
Conhecimento Médio: Deus
conhece todos os "mundos possíveis" e escolhe o melhor. |
Ser parte da maior família de
salvos possível, em um mundo de liberdade real. |
A Síntese: Une a
soberania total (Deus escolhe o cenário) com a liberdade real (o homem
decide). |
Conclusão:
Como papel de fundo, a análise girou
em torno da seguinte questão: como conciliar a soberania de Deus, a
liberdade humana e o objetivo da criação, sabendo que o propósito de Yahweh era
formar uma "família de piedosos" (Malaquias 2:15), onde o amor fosse
sincero e voluntário?
A Glória de Deus não é uma auto
exaltação solitária, mas a manifestação de Sua bondade (Êxodo 33) através da
criação de uma família de piedosos, i.e., pessoas que amam livremente. Para tanto,
obrigou-se a "suportar" a possibilidade da perdição porque o amor
forçado não é amor.
Não sendo surpreendido pelo mal,
mas conhecendo que se manifestaria, Deus, de antemão, proveu a redenção
(Apocalipse 13:8) e orquestrou a história para maximizar a salvação.
Em suma: enquanto o
Calvinismo sacrifica a liberdade humana e o Arminianismo sacrifica o controle
divino sobre o resultado final, o Molinismo preserva ambos, apresentando um
Deus que é, ao mesmo tempo, estrategista supremo e pai amoroso.
Referência Bibliográfica:
NASCIMENTO, M.V.R. (2020). O
significado da vida para as correntes soteriológicas calvinista, arminiana e
molinista e sua relação com o plano divino. Revista Sociedade Científica,
v.3, nº 7. DOI: 10.5281/zenodo.4127338.

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