A Ceia do Senhor
Marcelo Victor R. Nascimento
A instituição da Ceia
do Senhor é um dos eventos mais centrais da narrativa bíblica e ocorreu na
noite em que Jesus foi traído, pouco antes de sua crucificação. Não se trata de
um evento acidental, mas um ato carregado de simbolismo teológico e profético.
Ao analisarmos esse momento, podemos extrair conclusões fundamentais sobre a
natureza da missão de Jesus e o estabelecimento da fé cristã.
Historicamente, esse momento marca a transição da Antiga Aliança [representada pela Páscoa judaica] para a Nova Aliança [inaugurada pelo sacrifício de Cristo, o Cordeiro de Deus]. O evento ocorreu em Jerusalém, em um local tradicionalmente conhecido como o Cenáculo [uma sala no andar superior de uma casa].
Jesus e seus doze apóstolos
estavam reunidos para celebrar a Pessach [Páscoa Judaica], uma festa
milenar que relembrava a libertação do povo de Israel da escravidão no Egito.
Nessa refeição, era costume consumir cordeiro assado, ervas amargas e pão ázimo
(sem fermento), relembrando a pressa da saída do Egito.
Durante a refeição, Jesus
transformou o significado dos elementos tradicionais da mesa, instituindo um
novo memorial para seus seguidores. Os Evangelhos [Mateus, Marcos, Lucas] e a
carta do apóstolo Paulo [1 Coríntios 11] descrevem dois momentos principais:
- O Pão: Jesus tomou um pão
ázimo, deu graças, partiu-o e entregou aos discípulos, dizendo: "Tomai,
comei; isto é o meu corpo que é dado por vós; fazei isto em memória de mim."
O pão partido passou a simbolizar seu corpo físico, que seria moído e
castigado na cruz horas depois.
- O Cálice [Vinho]: após
cear, Jesus pegou o cálice de vinho e o deu aos discípulos, declarando: "Este
cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vós para
remissão dos pecados." O vinho passou a representar o sangue
de Jesus, que substituiria o sangue dos cordeiros sacrificados na Antiga
Aliança para o perdão dos pecados.
SIGNIFICADO
DA CEIA:
1 – Uma ordenança:
Ao
comemorar a páscoa, Jesus disse: “Fazei isso...”. Trata-se,
portanto de uma ordenança, lembrando que a OBEDIÊNCIA É A MAIOR EXPRESSÃO DE
FÉ, de sorte que a fé sem obras é morta [Tiago 2:17].
Não
há nada tão importante para Deus do que a submissão genuína e a obediência à
Sua vontade [1 Samuel 15:22; Oséias 6:6].
Obs: as medidas apresentadas a Noé [Gênesis 6:14-16; Hebreus 11:7],
na construção da “arca”, e a Moisés [Êxodo 33:7-11], na construção da “tenda da
congregação”, respectivamente, diziam respeito à OBEDIÊNCIA e não propriamente
às medidas.
Aprofundando
um pouco mais essa questão, o apóstolo João em juma das suas cartas: “aquele
que tem os mandamentos e os guarda [se esforça para guardá-los], esse
é o que ama verdadeiramente a Deus [a OBEDIÊNCIA é uma prova de
AMOR] [João 14:21].
Obs: portanto, quando nos reunimos para a Ceia do Senhor, estamos
realizando um ato de amor para com Deus que não ficará sem resposta [Ele ama e
se manifesta para quem obedece – João 14:21], pois Ele é galardoador dos que
procuram agradá-Lo.
2 – Um ato memorial:
Jesus
disse: “Fazei isso em memória de mim”, de sorte que se trata de
um momento em que RECORDAMOS do que Jesus fez por nós, i.e., do martírio que
nós merecíamos e que Ele tomou sobre si por amor.
Consiste em um memorial que não diz respeito somente ao passado, mas também ao FUTURO,
pois Jesus disse que, ao celebrarmos a ceia, anunciamos Sua morte “até que
Ele venha”.
Obs: não só nos lembramos do SACRIFÍCIO de Jesus, mas ANUNCIAMOS ao
mundo a razão da nossa alegria, i.e., o Evangelho de Jesus [a vida, a morte, a
ressurreição e a volta do Filho de Deus para resgatar Sua igreja].
3 – A comunhão do corpo e do
sangue de Jesus [1 Co 10:16]:
Trata-se de uma união
de vida com Deus [vida diária] e uma união para com os irmãos [formando uma
unidade], constituindo-se em um momento em que confessamos nossa DEPENDÊNCIA
UNS DOS OUTROS para que haja crescimento espiritual, através dos dons
derramados na igreja.
Obs: na Ceia, confessamos que, em Cristo, terminam as diferenças
culturais, intelectuais, sociais, econômicas, etc., e somos IRMÃOS. Por isso a
importância de comermos do mesmo pão e bebermos do mesmo cálice [irmanados] e,
principalmente, de não fazermos acepção de pessoas entre nós.
O
Senhor disse: “Quão bom e com suave é que os irmãos vivam em comunhão”,
pois na união o Senhor ORDENA BÊNÇÃO PARA SUA IGREJA E VIDA PARA SEMPRE [Salmo
133].
Obs: há uma bênção reservada para quem se assenta à mesa e participa da Ceia, constituindo-se em uma pessoa privilegiada por fazer parte da promessa de receber cem vezes nesta vida e pôr fim a vida eterna, como garantiu Jesus [Marcos 10:30].
4 – Uma aliança:
Jesus
disse que o cálice trazia o SANGUE DA NOVA ALIANÇA. Assim como ocorria em cada
“páscoa judaica” [onde um cordeiro era morto], a nova aliança é
renovada a cada “Ceia do Senhor”, trazendo o sentido de CONTINUIDADE,
i.e., trata-se da RENOVAÇÃO DO COMPROMISSO entre ambas as partes.
Obs: as alianças sempre envolveram símbolos externos [visíveis],
como é o caso de(a):
(1) Abraão, por exemplo, que recebeu
PÃO E VINHO de Melquisedeque [uma figura do sacerdócio de Jesus], para celebrar
sua vitória sobre cinco reis, prefigurando a Ceia do Senhor [Gênesis 14:18]; e
(2) CIRCUNCISÃO, como sinal do pacto
feito com Abraão, o pai da fé [Gênesis 17:10-14], sendo representada hoje, externamente, pelo batismo nas águas [um sinal visível de aliança, um sinal público, de
pertencimento].
Toda
aliança [pacto] envolve RESPONSABILIDADES de ambas as partes. Da parte de Deus,
Ele nos prometeu o selo [o Espírito Santo] e está sendo fiel ao que prometeu.
Agora, a nós, cabe, tão somente, procurarmos, com todas as forças, não
entristecermos o Espírito Santo [esse é o nosso papel].
Obs: a pergunta é: temos cumprido a nossa responsabilidade [nosso
papel], ou, ao menos, procurado cumpri-lo?
5 – Um ato de consequências
espirituais:
Há
uma maneira correta de celebrar a Ceia do Senhor, de tal sorte que, se faltar DISCERNIMENTO
acerca do corpo do Senhor [a igreja], haverá MALDIÇÃO da parte de Deus sobre o
transgressor, significando fazer acepção de pessoas dentro da igreja, como
ocorria em Corinto [1 Co 11:22].
Muitos
estavam doentes e outros morriam na igreja de Corinto, por causa desse erro, como
disse o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 11:30.
Isso
indica que NÃO SE TRATA apenas de um RITUAL VAZIO DE SIGNIFICADO, mas de algo
profundo, relacionado à comunhão e ao amor entre os irmãos [o “corpo” de Jesus].
Por
isso, há que se ter em mente o que disse Jesus, em Mateus 5:23-24: “quem
trouxer uma oferta ao Senhor e se lembrar de que seu irmão tem algo contra ti,
deve primeiro reconciliar-se com ele e depois ofertar”.
Obs: a Ceia é o momento adequado para se fazer um EXAME NOS CORAÇÕES, a fim
de que se possa achegar à mesa do Senhor e participar DIGNAMENTE do corpo e do
sangue do Filho de Deus, a fim de que não recaia uma maldição sobre o participante.
6 - Trata-se de um dever:
Além de
ser um PRIVILÉGIO poder participar da Ceia do Senhor, é um DEVER para o cristão fazê-lo, pois
quem não participar:
(1) NÃO
TEM VIDA EM SI MESMO, por causa da desobediência [João 6:53]; e
(2)
NÃO TEM PARTE COM JESUS, por não se submeter à Sua vontade [João 13:8].
Obs: uma boa pergunta: Para quem é a Ceia? Deve participar da Ceia do
Senhor os domésticos da fé, i.e., aqueles que NASCERAM DE NOVO e que fizeram um
PACTO COM O SENHOR nas águas do batismo [batizaram-se em Nome do Senhor Jesus,
conforme o batismo realizado pelos apóstolos e como determina Colossenses 3:17, que diz: “Tudo
que fizerdes por palavra ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus”].
CONCLUSÃO:
Nesse
acontecimento tão sublime, Jesus estava oficialmente encerrando o ciclo da
Páscoa Judaica e inaugurando a Nova Aliança. Enquanto a primeira celebrava a
libertação da escravidão no Egito por meio do sangue de um cordeiro, a segunda passa a celebrar a libertação da escravidão do pecado por meio do sangue do
"Cordeiro de Deus". Dessa maneira, Jesus se coloca como o cumprimento
de todas as promessas do Antigo Testamento.
Sob
a ótica Unicista, na Ceia do Senhor, é possível ver a manifestação máxima do
amor de Deus: Yahweh, o Único Deus, preparando pessoalmente o memorial da
Sua própria manifestação em carne. Ou seja, o próprio Deus, na forma de
Filho [humanidade], entregou-se para reconciliar o mundo consigo mesmo [2
Coríntios 5:19].
Você
gostaria de aprofundar em algum desses pontos, como a diferença teológica entre
a transubstanciação e o memorial simbólico?
Referência Bibliográfica:
SUBIRÁ, L. (2024). A Ceia do Senhor
[vídeo]. Canal Luciano Subirá.

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